Quanto dói uma saudade

Quanto dói uma saudade

Só no idioma português e no dialeto galego existe a palavra saudade, derivada do latim solitas, solitatis. Seja na forma moderna, seja na sua forma arcaica, como soedade, soidade, suidade, saudade engloba os sentimentos de perda de algo ou de alguém, falta, distância. Independentemente da língua, do país, da idade, no entanto, ninguém está imune aos seus efeitos. O termo teria se popularizado, dizem, durante as viagens marítimas, quando os navegantes lusitanos, a sós diante da imensidão dos oceanos ou das terras a serem desbravadas, queriam se referir à falta que sentiam da “Terrinha”. Na contramão, mais tarde, os negros escravos sentiam de sua África uma “saudade terrorista”, muito mais desmedida, a que davam o nome de banzo. Muitos morriam disso, prova evidente de que a saudade mata. Já os negros caboverdianos, falantes do português, transformaram o banzo em “sodade”, como na música de Cesária Évora. “Si bô ‘screvê me/’M ta ‘screvê be/Si bô ‘squecê me/’M ta ‘squecê be/Até dia/Qui bô voltá…”, cantava. Para dizer que têm saudade, os espanhóis falam em nostalgia, enquanto os mexicanos saudosos estrañam. Mais frios, práticos e pragmáticos, os ingleses e norte-americanos dizem simplesmente que estão sentido falta de alguém ou de algo: I miss someone ou I miss something… 

Sempre quis escrever sobre esse tema um dia. Imaginei que fosse tarefa fácil, ainda mais para alguém que tem experimentado saudade em doses cavalares nos últimos tempos, mas não é. Poetas tentaram de todas as formas, alguns chegaram bem perto, mas poucos conseguiram dissecar em sua totalidade esse cadáver chamado saudade. “Tomara/que a tristeza te convença/que a saudade não compensa/e que a ausência não dá paz/E o verdadeiro amor de quem se ama/tece a mesma antiga trama/que não se desfaz…” (Vinicius de Moraes). Ou “…saudade é amar um passado que ainda não passou/É recusar um presente que nos machuca/É não ver o futuro que nos convida…” (Pablo Neruda). Se soubesse pintar, faria como o grande Almeida Júnior que pintou em 1899, pouco antes de morrer, a sua “Saudade”. Nada mais perfeito, a imagem que vale bem mais que mil palavras. Uma mulher de meia-idade, bonita, vestido preto longo e um chale escuro, encostada na janela do quarto, observa com ar choroso o que vem a ser uma fotografia. Não fica bem claro se ela perdeu um ente querido ou “ele” dela se foi, para nunca mais voltar. Nessas horas, acreditem, não há nenhuma receita pronta! Quem quiser ver o óleo sobre tela de 101 x 197 cm é só ir à Pinacoteca de São Paulo.

Deveria existir um ranking da saudade, mas isso talvez nunca venha a ocorrer, por sua subjetividade. Simples assim. Saudades dos cheiros de infância, do cachorrinho de estimação, da primeira namorada teriam pesos menores, evidentemente. É o tipo da saudade que não mata, ao contrário, “mata-se”. O índice de saudades da pátria distante, da mãe no Interior ou do amor que se rompeu após longos anos subiria alguns números na escala, mas também é passível de reversão. Agora, imbatível mesmo, sem nenhuma dúvida, é a saudade de quem se foi para sempre (se bem que esse “para sempre” é discutível, pelo menos àqueles mais espiritualizados). O quarto vazio, intocados os objetos de uso pessoal sobre a prateleira, as fotos de tempos felizes, a cama fria; a imagem é de desolação. O aperto no coração a cada lembrança, a risada que ainda ecoa nos confins da mente, a impotência absoluta e a certeza de uma vida “tan fragil como un segundo”, como na poesia de Violeta Parra.

Manoel Dorneles

Nota da Redação:

Este texto foi escrito em comemoração ao Dia da Saudade, 10 de setembro.

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