Os que chegam com a noite 

Acordei com a mulher saindo da cama, e só depois ouvi o gato miando perto da janela, do lado de fora. Olhei para o relógio e tinha passado um pouco da uma manhã. Fiquei imaginando o que aquele estrupício estava fazendo fora de sua cama àquela hora, e fazendo barulho para nos acordar. A mulher voltou um pouco depois e disse que o gato estava alvoroçado porque tinha um gatinho em nosso quintal. “É um filhotinho, branco, pequenininho”, ela descreveu.

Perguntei se o filhotinho branco tinha um tufo de pelos rajados de cinza no topo da cabeça e na cauda, o que poderia indicar que era filho de nosso gato, mas ela disse que não deu para ver direito, porque ele fugiu correndo. Mas parecia ser totalmente branco. Se bem que perguntei por perguntar: nosso gato, Deck, foi castrado logo que escolheu nossa casa para se instalar, isso há mais de três anos, e, a menos que tivesse congelado seu sêmen, não teria como gerar um filhote a esta altura.

Os detalhes das partes rajadas de cinza, não fosse ele emasculado, serviriam para identificar a possível procedência genética da cria. Explico: Deck teve um problema de acabamento – quando entrou na fase de pintura na barriga da mãe, a tinta não foi suficiente para cobrir o corpo originariamente branco, e pintaram apenas o rabo e o topo da cabeça. Brinco que, além do nome social, ele tem o apelido indígena de Tintacabô 

Minha preocupação – que me custou uma parcela insone da noite – é que o gatinho fosse mais um felino que elegera minha casa pra morar. E então teríamos não um, mas dois gatos mal-humorados a exigir lotes de whiskas com extratos sabor atum e a encher de unhadas o focinho do pobre Fred, um cão pelo menos oito vezes maior que os dois somados.

De manhã, porém, o filhote havia sumido. Procurei em todos os cantos, debaixo dos carros, e até no motor deles – já houve um caso aqui de um gato aninhar-se debaixo do capô – mas não o encontrei. Desaparecera, voltara para o lugar de onde tinha vindo. E então fiquei me perguntando o que um filhote de gato estava fazendo na rua à uma da manhã Fugira de casa? Estava tentando aplicar um golpe, se dizendo filho do Tintacabô? Estava procurando um novo local para viver, mas foi desaconselhado pelo antigo morador – aqui, SÓ EU?

Vai saber… Gatos são imprevisíveis! E, pelo jeito, começam cedo!

Marco Antonio Zanfra

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