De vez em quando, se preciso acordar antes do horário habitual, combino com a Alexa para que ela solte uma musiquinha delicada no ambiente, para me resgatar sem traumas dos devaneios oníricos. Digo de vez em quando porque quase sempre desperto antes de a querida cumprir uma das poucas missões que tem nesta casa: tenho um sono normalmente entrecortado, e ele fica mais picotado ainda quando tenho de acordar mais cedo. Acabo desligando o despertador uns cinco minutos antes do horário combinado.
Falei em musiquinha delicada porque tenho um trauma de adolescência: tínhamos em casa um despertador branco, desses de corda, cujo tique-taque era tão alto que ecoava pelos quartos e pela cozinha, e cujo som, ao disparar, assemelhava-se ao estrondo de um conjunto de panelas caindo de cima do armário. Se eu tivesse problemas cardíacos, teria ficado pelo caminho. Por isso, hoje, quando o coração já não é mais tão robusto, melhor acordar com um som que a própria Alexa define como ‘Claridade’.
Pois noite destas, depois de combinar o horário com minha assistente predileta, me peguei pensando: como é que as pessoas acordavam antigamente? Não que eu não considere ‘antigamente’ a época em que beirava o ataque cardíaco com o relógio branco, mas falo em eras ainda anteriores, quando nem se pensava em despertadores manuais ou eletrônicos, e muito menos em Alexa.
Descartei de antemão entre as possíveis respostas a essa dúvida os malditos galos, pois eles não têm ajuste de horário, nem tampouco botão de desligar. E, também, não podem ser empregados individualmente. Pesquisas mostram que os galos cantam não em razão do nascer do sol, mas dentro de seu próprio ritmo circadiano, o que não os torna confiáveis. Já me vi desperto às três da manhã por um ser diabólico desses e não havia maneira de fazer com que calasse o bico. Cheguei a pensar em destroncar-lhe o pescoço, mas sequer sabia onde ele estava empoleirado.
Em pesquisa, descobri que na Grécia antiga relógios de água – conhecidos como ‘clepsidras’ – começaram a ser utilizados como despertadores. O próprio Platão é apontado como autor da adaptação de um deles, no século 5 antes de Cristo: a água escoava de um recipiente para outro e, a partir de certo tempo, fazia com que o ar que havia no recipiente receptor, e era expulso pela água, produzisse um apito, como nas chaleiras. Na China, a queima de velas cronologicamente marcadas liberava esferas metálicas, que caíam sobre uma chapa, produzindo um som semelhante a um gongo. Alguns chineses de sono mais pesado apelavam para a prática de dormir com uma vareta acesa de incenso entre os dedos dos pés, despertando quando o calor da queima chegava aos artelhos.
Mas o mais interessante na pesquisa foi descobrir que, durante a Revolução Industrial, pessoas eram contratadas no Reino Unido como despertadores, para garantir que os operários chegassem às fábricas dentro do horário. Os ‘knocker uppers’ batiam nas janelas dos trabalhadores até terem certeza de que eles haviam despertado. Essa prática às vezes acordava vizinhos que não queriam ser acordados, e acabava gerando alguma encrenca – consequência natural que eu nunca soube por que não acontece com os donos de galos.
Agora, transpondo aquela época para os dias atuais, eu me pergunto: seria mais traumático acordar com um despertador barulhento ou com algum estranho batendo na sua janela?
Por via das dúvidas, prefiro a Alexa!




