Gotham City

A ideia de que está sendo vigiado faz o ser humano tomar atitudes menos mesquinhas, menos fora dos padrões aceitos pela sociedade. Essa é uma constatação antiga, e até inspirou pequenos cartazes com os dizeres ‘sorria, você está sendo filmado’, mas ninguém estava sendo filmado, nem precisava sorrir. Era a fiscalização sugerida. A presença de fiscais, ainda que fictícios ou ficcionais, faz com que as pessoas prestem mais atenção nos próprios atos, evitando ações antipáticas ou, até, mais ou menos ilegais.

Placas nas estradas indicando que a velocidade dos veículos está sendo controlada por meios eletrônicos chegam a inibir um pouco os motoristas que costumam trafegar acima do limite. Mesmo que a gente saiba que a maioria dos radares – a tal de fiscalização eletrônica – não está funcionando, e o policiamento ostensivo mal e mal se sustenta, principalmente quando chove. É o efeito psicológico: a autoridade tomando conta de que a gente se comporte como nossos pais nos ensinaram.

Mas esse respeito à autoridade chega a ser patético. Até personagens de ficção acabam exercendo um certo controle sobre o comportamento humano. Foi o que constatou pesquisa da Università Cattolica del Sacro Cuore feita no metrô de Milão, na Itália. Nesse estudo, a presença de um cavaleiro mascarado no trem alterava consideravelmente a disposição altruísta dos passageiros, como se eles tivessem medo de ser punidos por sua falta de empatia.

O ‘cavaleiro mascarado’ era ninguém menos do que o Cavaleiro das Trevas, o próprio Batman. No experimento, feito em cento e trinta e oito viagens do metrô, era empregada uma mulher com uma falsa barriga de grávida, que, quando entrou sozinha no vagão, teve a cessão do lugar para sentar-se por trinta e sete por centro dos passageiros. Nas vezes em que o Batman também estava no vagão – entrando por outra porta e não interagindo com a falsa grávida – esse número subiu para sessenta e sete por cento.

A leitura da experiência parecia óbvia: a presença de um justiceiro entre os passageiros fazia com que eles fossem mais justos. Mas um dado destoou dessa conclusão: quarenta e quatro por cento dos que cederam o lugar à grávida disseram sequer ter percebido que o Cavaleiro das Trevas estava entre eles. O que fez com que os pesquisadores indicassem que a presença de Batman não provocou efeito intimidatório, mas ‘despertou’ aqueles que costumam viajar absortos e desligados do resto do mundo. 

Marco Antonio Zanfra

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