Quem grita mais

Não dava para distinguir nenhuma voz individual no meio da gritaria das crianças de quatro ou cinco anos, no pátio da creche Pequeno Príncipe, aqui perto de casa. Algumas pessoas chamam isso de alarido, mas eu acho que alarido é pouco para definir aquela balbúrdia. Eram pelo menos vinte toquinhos de gente gritando por alguma coisa impossível de saber o que era.

 Até que uma voz mais forte, muito mais forte, soou: 

– Chega de bagunça, e vamos formar fila!

Foi como um passe de mágica! A balbúrdia, ou alarido, silenciou imediatamente. E as crianças, em quietude absoluta, agruparam-se geometricamente em fila indiana, mantendo a distância de um braço entre uma e outra. A rapidez e efetividade com que tudo foi organizado me fez pensar que nos campos de concentração funcionava assim: obediência por medo! A voz da ‘capataz’ da creche trazia implícita alguma punição, creio.

O engraçado é que, quando vi a dona da tal voz de comando, fiquei imaginando de onde uma pessoa daquele tamanho tirava aquele potencial sonoro: ela não devia ter mais de metro e meio, e tinha um rostinho delicado e uma boca de onde só poderiam brotar murmúrios. De amor, se me permitem um pouquinho mais de malícia.

A imagem me fez lembrar imediatamente do professor Roberto Ribeiro, diretor do Grupo Escolar Júlio César de Oliveira, em Pirituba, onde fiz o curso primário. Ele não era tão pequeno quanto a tia da creche, mas tinha uma voz igualmente desproporcional ao seu tamanho. Grave e tonitruante, sua voz tomava conta do pátio aberto da escola, onde as crianças eram obrigadas a cantar, organizadamente, em filas perfeitas, o Hino Nacional todas as manhãs. 

Ele era também pianista, e organizou um esquema de doação dos pais de alunos para comprar um piano de segunda mão e instalá-lo na antessala da diretoria. Quando o piano foi entregue, ele fez uma pequena demonstração de seus dons aos poucos presentes na sala. Não me esqueço da imagem de que ele só alcançava o pedal de sustain com a ponta do pé direito. 

Não sei por que cargas d’água ele achava que eu, aos nove anos, era candidato a me tornar um virtuose no teclado preto e branco – ebony and ivory – e resolveu me ensinar piano. Não aguentei mais do que dois meses ouvindo aquela voz roufenha tentando fazer com que eu repetisse o solfejo de um compasso quaternário: dó-ó-ó-ó/ré-é-é-é/mi-i-i-i…

Desisti, como desisti de aprender tantos outros instrumentos musicais, graças a minha absoluta falta de empatia com a disciplina, mas não me esqueci das posições das notas da clave de sol no pentagrama. Consigo até hoje ler uma partitura, com a rapidez de um semiletrado fazendo cursinho no Mobral.

Não sei se a moça da creche tem algum outro dom, além de usar a voz potente para disciplinar a meninada. Mas sei que, graças a ela, consegui evocar memórias de mais de sessenta anos atrás. Não deixa de ser uma vocação, né?

Marco Antonio Zanfra

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