Olhe para sua mão. Pense que ela não seja composta de pequenos ossos, carne magra, cartilagem e pele, mas apenas uma imagem. Uma fotografia em que o fotógrafo, de propósito, alterou o foco. Ou uma foto que passou por um filtro do tipo gaussian blur, do Photoshop, e ficou totalmente desfocada. Pensou? Agora, imagine que você tenha de cortar as unhas dessa imagem de contornos indistintos de sua mão.
Que me perdoem a descrição meio surreal, mas foi assim que me senti quando me vi com um cortador de unhas na mão direita e uma imagem desfocada da mão esquerda pedindo que suas unhas fossem aparadas. Não que uma inversão – as unhas da direta e o cortador na esquerda – fosse fazer alguma diferença, já que eu me sentiria desamparado de qualquer maneira. Pedir ajuda? Procurar uma manicure?
A partir de uma certa idade, por mais errado que isso pareça, a gente quer sempre gritar a própria independência às margens do Ipiranga, mesmo que não esteja nem perto das margens do Ipiranga nem tenha uma verdadeira independência a gritar. A gente não quer depender de ninguém para nossas atividades prosaicas, aquelas que sempre desempenhamos sozinhos, e vamos teimar em continuar no desempenho autônomo até que talvez seja tarde demais para pedir socorro.
Mas acho que falta explicar algo: estou assim, sem enxergar bulhufas de perto, desde que passei por uma cirurgia de catarata e foram instaladas lentes intraoculares no lugar do cristalino removido. Essas lentes substituem os óculos que eu usava antes da operação. Como míope, bastava que eu tirasse os óculos para ver de perto. Agora, com os óculos lá dentro dos olhos, como removê-los?
E então, sem condições de arrancar os óculos anexados ao globo ocular, tive de confiar na memória para seccionar pedaços das placas de queratina que protegem as pontas de cada um dos meus dedos, tomando o cuidado de preservar a carninha tenra que se esconde por debaixo delas. O cortador de unha – que minha mãe chamava carinhosamente de ‘picopico’ – é um perigo, porque funciona baseado no princípio da alavanca, que multiplica a força que seu dedo imprime à lâmina.
Depois da investida em cada unha, uma conferência com uma lupa para ver até que ponto minha memória corporal é confiável. Por falar em lupa, é assim que venho escrevendo: confiando na memória sobre a localização das letras no teclado e conferindo o resultado com a lente em seguida. Dentro de alguns dias, devo voltar ao oftalmologista que me operou e receber uma receita de óculos para voltar a enxergar de perto.
Aí, quem sabe, eu mude de assunto!




