Cai quem quer

Mal acabara de ler neste blog o texto do Marco Antonio Zanfra sobre os “golpes” ao vivo ou na Internet, quando recebo uma mensagem no meu WhatsApp. Era do escritório do meu advogado, com o logotipo e tudo mais: “Boa tarde, Manoel, tudo bem? Venho informar que seu processo contra o Banco XZ se encontra em fase de liberação… É com grande satisfação que lhe informo que obtivemos uma decisão favorável em sua causa… Parabéns.” E prosseguia: “O juiz já liberou a restituição (20 mil e pouco, o valor estava correto). Preciso que me encaminhe o nome do seu banco, agência e conta para o recebimento da quantia…”

Estranhei. Primeiro pela formalidade (meu advogado é meu primo e não nos tratamos assim); segundo, porque há uns três meses, eu já fora informado da sentença. Embora me seja favorável, o processo está parado em instâncias superiores por questões políticas. A mensagem também pedia para eu ficar atento ao celular, pois um certo “promotor jurídico” ia fazer contato para a liberação do dinheiro.

Entretido com outras mensagens, não percebi que o sujeito realmente me ligou. O “meu advogado” volta à carga: “Mano, o promotor tentou contato, você não atendeu… estou no meio de uma audiência.” O “mano” me pegou. Estranhei mais ainda. Por mais formais que sejam, advogados não se expressam assim. Desconfiado, mas curioso com a situação, liguei de volta para o tal “promotor jurídico”. Ele não só pediu os dados da agência e conta, como também sugeriu que eu entrasse no aplicativo do meu banco e dividisse a tela com ele. Não é singelo isso?

Derrubei a ligação e entrei em contato com meu primo. “É o golpe do falso advogado. Eles fizeram isso com outros clientes meus”, foi a primeira coisa que ouvi. Passei para ele todas as mensagens e o número do telefone do falsário. Ao perceber que fora descoberto e que passara os dados adiante, o cara me xingou: “Você é um idiota mesmo.” Logo em seguida, apagou toda a nossa conversa.

Trabalhei alguns anos como repórter da área de polícia da Agência Folhas. Depois, editei durante um bom tempo a Gazeta de Pinheiros, à época, o melhor jornal de bairro de São Paulo. A avenida Teodoro Sampaio e o Largo da Batata fervilhavam. Muita gente vinha dos bairros mais distantes, além do Butantã, fazer comprar nas lojas populares da região. Era o cenário ideal para golpistas de todos os naipes. Desde batedores de carteira até os manipuladores do “jogo das tampinhas” e do “bilhete premiado”. Eram tantos registros que o pessoal do 14º Distrito fazia piadas sempre que passávamos por lá em busca de busca de informações. “A gente prende o cara numa esquina, ele passa a noite aqui e no dia seguinte já está ‘trabalhando’ em outra”. 

Num tempo em que os jornais de bairro eram importantes fontes de informação, cansamos de fazer matérias a respeito desses golpes. As rádios populares também colaboravam ao relatar os casos e pedir cuidado aos ouvintes. Adiantava nada, toda a semana, chegavam relatos de novas vítimas. Se bobear, hoje em dia, mesmo com a disseminação das redes sociais, tem gente que ainda cai nos mesmos golpes de 30, 40 anos atrás.   

Pelas minhas décadas de vida, e também por tudo que vi e ouvi nesses anos, deveria estar vacinado contragolpes, mas não estou. O caso relatado no início deste texto é um dos mais simples. Não sei por que cargas d’água, alguém do tal banco XZ apropriou-se dos meus dados e me enviou um cartão, que eu nunca recebi. Demorou para eu perceber que mês a mês, eles descontavam um certo valor da minha aposentadoria. Quando percebi, recorri ao meu primo e entramos com a ação de que falei acima.

Certa vez, meados dos anos 1990, buscava um carro novo. O Corsa, recém-lançado, me parecia uma boa opção. Num tempo em que se consultava anúncios de carros em jornais, me chamou a atenção um tijolinho, cujo telefone tinha o código do Vale do Paraíba, mais precisamente de São José dos Campos. A pessoa se dizia funcionária da General Motors local e oferecia um Corsa zero por quase metade do preço das lojas.

Liguei. Uma secretaria atendeu como se fosse mesmo da GM e pediu para eu esperar. Até a música era da montadora. Pouco depois falo com o vendedor do carro, o “funcionário” da empresa. Ele confirma os dados do anúncio e explica que o preço estava mais baixo, pois o carro fora obtido com base nas vantagens oferecidas pela GM aos seus colaboradores. Como eram muitos os interessados, eu precisava ser rápido. Tinha que transferir 1.200 reais a título de entrada, ou seja,10 por cento do valor total pedido.

Como prova da lisura da operação, a pessoa me manda uma cópia da nota fiscal com o timbre da General Motors e tudo o mais. Não tive dúvidas. Fui até um caixa eletrônico e transferi o valor do sinal. No dia seguinte, tentei ligar para combinar a entrega do carro e o pagamento do restante. Uma, duas, três vezes. O telefone mudo do outro lado era o sinal que meu “sinal” também evaporou… Duas semanas depois, a Folha ou o Estadão estampa a informação de que a polícia de São José dos Campos tinha desbaratado uma quadrilha, especializada em golpes como o de que fui vítima.  

Golpes sempre existiram, desde os tempos bíblicos, desde que uma tal de Eva e a serpente engabelaram o pobre Adão. Cai quem quer. Enquanto a grande maioria da população brasileira dá um duro danado para levantar uns trocados no final do mês, uns e outros tramam nos subterrâneos, nos desvãos, nas celas, formas de subtrair parte desses parcos dividendos. Inventam golpes novos, aperfeiçoam os antigos, e gente como a gente cai feito um patinho…  

Manoel Dorneles

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