Até que a morte nos una

Não tenho assistido muito o Globo Repórter, mas um dos últimos trouxe um tema curioso. Nestes tempos de etarismo aflorado, tratou dos relacionamentos de pessoas, principalmente mulheres, acima de 50 anos ou mais. A reportagem acompanhou alguns grupos delas noite afora, com objetivo de mostrar como se divertem e, de passagem, as facilidades ou dificuldades para encontrarem novos parceiros.

Pelo que vi, é nítido que elas são muito mais dispostas e descoladas do que os homens. Viajam, vão a bares, a danceterias e, aparentemente, estão sempre alegres, independentemente, do sucesso ou não de suas empreitadas. Falo de experiência própria, pois fiquei viúvo quase nos 60 e, se dependesse do ânimo para essas saídas noturnas, estaria sozinho até hoje.

Evidentemente as novas tecnologias ajudaram a criar um amplo leque de opções para reunir pessoas dessas faixas etárias. Aqui no Litoral Paulista, mais precisamente em Santos, há uma empresa que organiza eventos fechados, acessíveis ao pessoal mais “maduro”, digamos assim. Além do Tinder 50+, há também diversos sites com essa proposta. Um exemplo é o site Coroa Metade, criado pelo jornalista gaúcho Airton Gontow.

Claro que cada um usa suas armas e seus métodos para encontrar sua “alma gêmea”, mesmo depois de ter cruzado o “cabo da boa esperança”. Como já disse, depois da morte de minha primeira mulher, quase me perdi num perluto de oito meses. Não abandonei meus exercícios físicos, nem a turma do futebol de final de semana, mas as noites se tornaram bem complicadas.

Sem disposição para sair, passei a beber mais e a sofrer as consequências geradas pelo álcool. Meu comportamento naquela época quase deu razão a essas mulheres, quando falam dos problemas encontrados na busca de novos parceiros. Uma parte dos homens maduros é comprometida, outra não se interessa pelo sexo oposto. Há ainda uma terceira categoria, na qual eu estava incluído, a dos que bebem muito e não cuidam da aparência, relaxam, enfim.   

De fato, andava bem relaxado. O que me salvou foi o interesse de uma colega de empresa. Jornalista também, ela me acompanhava de longe (morava e trabalhava no interior de São Paulo), apreciava meus textos e, vez ou outra, trocávamos mensagens de cunho profissional. Até que um dia, me mandou uma mensagem para que eu fosse encontrá-la. Fui, gostei, deu match. Estamos juntos há 14 anos, entre namoro e casamento.

Não é incomum pessoas da mesma empresa, independentemente da idade, se relacionarem pelos mais variados motivos. No meu caso, foi a morte de minha primeira mulher. Por falar em morte, uma conhecida nossa, ali na casa dos 35, 36 anos, ‘inventou’ um meio bem sugestivo de encontrar um novo parceiro. Foi informada por uma amiga, secretaria de uma rede de distribuição de materiais de construção, que a esposa do chefe dela tinha falecido. Ela pegou o contato do viúvo, esperou passar uns três meses, e foi à luta. Depois de dois anos de namoro, vão se casar agora em setembro.

Vale lembrar os motivos que a fizeram optar pelos viúvos. Os namorados que arrumara até então, quase sempre, ainda eram apaixonados pelas ex-mulheres. Viúvo, não necessariamente, pensou. Não deixa de ser uma nova modalidade. Quem sabe, a partir de agora, homens ou mulheres mais maduros não passem a procurar seus parceiros também nos obituários? A cada enterro, uma carne “mais ou menos nova” no pedaço…

Manoel Dorneles

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