– Hoje é dia de mexericar.
Num primeiro momento, Silvana, minha esposa, não entendeu muito bem a frase da diretora da escola do Guarujá (SP), onde passa todas as semanas no seu trabalho como psicóloga. Imaginou logo que se tratasse de alguma brincadeira, com o propósito de resgatar entre os alunos de hoje um hábito cultivado pelos mais antigos: o de futricar a vida alheia (ao vivo). Digo ‘ao vivo’, pois hoje em dia todos bisbilhotam a vida de todo mundo, mas no universo das redes sociais. Poucos ainda o fazem olho no olho.
Ficou surpresa quando, minutos depois, um dos colaboradores da escola chegou com um saco de mexericas e passou a distribuí-las entre os alunos. Mexericas, daquelas bem graúdas, cujo aroma acompanha você pelo resto do dia. A propósito, mexerica é o termo que costumamos usar aqui no estado de São Paulo. No Sul, é bergamota; em outras regiões brasileiras, ponkan, mandarina ou tangerina.
Sempre fui apreciador de mexericas, desde o tempo em que havia mexericos, futricas, fofocas, fuxicos. Aliás, fuxico, um termo bastante usado no nordeste brasileiro, remete também aos trabalhos de artesanato das mulheres daquela região. Enquanto costuravam ou bordavam os detalhes que iriam ornar as toalhas de mesa dos mais abastados, elas conversavam baixinho. Não demorou muito para alguém sugerir que estavam fazendo “fuxico”. Literalmente, estavam.
É provável até que essas artesãs não estivessem a falar mal da vida de ninguém, mas o povo não perdoa. Fuxico mesmo faziam dona Calota e dona Mercedes, a manhã inteira postadas no portão lá na rua de minha infância.
– Você viu, a Betinha, filha da Geralda? Já tá de namorado novo.
– Vixe, aquela ali tá mais rodada que pião.
– E a Isabel? Depois que o marido morreu, deu de sair toda a tarde, emperiquitada e perfumada. Sei não, tá tirando o atraso.
– Olha, mas dizem que quem está dando uns pulos fora é a Gertrudes. Deixa o marido dela descobrir. O homem é bravo… e corno.
Quanto feijão não queimou nas panelas, enquanto rolavam esses diálogos, aparentemente, inocentes. Digo ‘inocentes’, pois nunca se soube de alguém que tenha causado uma separação, uma morte ou tenha sido processado por conta dessas fofocas. E bastava passar pela calçada qualquer uma das personagens citadas, para que as fuxiqueiras, na maior falsidade, se desmanchassem em cumprimentos, salamaleques e elogios.
Dê-se o nome que for, mas todo ser humano sempre foi chegado num diz-que-diz, mexerico, fuxico, numa fofoca. “Fulano ou fulana, nem te conto… e blábláblá, blábláblá”. Num tempo em que não havia internet e, consequentemente, redes sociais, quem não se lembra dos “mexericos da Candinha”? Das revistinhas, como a Intervalo, cuja proposta era revelar os bastidores do rádio e da tevê.
Ainda hoje, Nelson Rubens tenta sobreviver, ao contar os bastidores e futricagens do mundo artístico. Coitado, coisas que vão ao ar, quando o pessoal já está “careca de saber”. Em certa medida, a fofoca permeia todos os setores da atividade humana. Para além da vizinhança, há quem goste de saber do vai-e-vem dos artistas, da turma do futebol ou dos esportes em geral.
Nem os monstros sagrados da literatura ficaram isentos de uma boa fofoca. Contam que Machado de Assis teria soltado o verbo e acusado de plágio as obras de Eça de Queiroz. O crime do padre Amaro, por exemplo, não passava de uma cópia grosseira de O crime do padre Mouret, de Émile Zola. Queiroz não deixou barato. Atribuiu a crítica à falta de leitura da obra de Zola e classificou o episódio como “simples intriga de clérigos e beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa”.
Em resumo, se do lado mental, futricar a vida alheia gera uma energia negativa e uma quebra de confiança; do lado psicológico, une pessoas, ao compartilhar informações sobre o grupo, e estabelece regras comportamentais dentro de uma comunidade. Desde que inofensivas, fofocas também seriam úteis para distração da turma.
Pelo sim, pelo não, vamos todos fofocar. Hummm, tenho uma boa aqui pra lhes contar, mas, por falta de espaço, só na próxima edição…




