Meu inimigo número 1

Meu tipo sanguíneo é o A positivo. Nenhuma novidade até aí, grande parcela da humanidade deve compartilhar dessa, digamos, consaguinidade. Só que o meu deve ter um plus, que faz dele uma espécie de néctar para os pernilongos de Santos (SP). Digo “de Santos”, porque em outras regiões ele não é tão apreciado assim. Estive recentemente em Itacaré (BA) e não levei uma única picada. Ao contrário dos meus companheiros de viagem, que passaram boa parte do tempo a matar mosquitos, enquanto se coçavam.    

Ainda não tenho uma opinião formada sobre o que faz de mim uma das vítimas preferenciais desses bichinhos. Seja em casa, no mercado, na academia, no banco ou em uma loja qualquer, não há um só dia em que eu não leve algumas picadas. Na tentativa de me agradar, minha mulher afirma que isso se deve ao fato de eu “ser gostoso” – acredito não, deve estar querendo meu cartão de crédito emprestado. Também não me fio muito nesse negócio do sangue, na verdade, ainda não descobri se sou “sangue ruim” ou “sangue bom”, na concepção deles, evidentemente.   

De qualquer maneira, segundo os pesquisadores, só o sangue não seria um fator suficiente para essa atração. Há quem diga que é falta de vitamina B-12, outros que isso se deve ao excesso de dióxido de carbono ou de ácido lático, exalados no suor. Pode até ser, eu costumo suar muito e sinto que os ataques se intensificam nessas condições. Gente maldosa afirma que é excesso de álcool nas veias, de que não discordo.

Mas eu também procuro me informar, afinal, é sempre prudente conhecer nossos inimigos. Pertencentes à família dos culicídeos – só as duas primeiras letras poderiam qualificá-los –, são conhecidos por diversos nomes, a depender da região. Mosquitos, muriçocas, carapanãs, pernilongos, bem esses aí. De verdade, é impossível quantificá-los, mas é incontável o número de seres humanos que morreram, ao longo dos séculos, direta ou indiretamente por causa deles.

Um pernilongo comum mede entre 3 e 4 milímetros e pode voar até oito metros de altura. Ou seja, pode alcançar até o terceiro andar de um prédio. Já vi alguns mais espertinhos dentro do elevador, mas graças à minha destreza, ficaram por lá mesmo, estatelados nas paredes. Descobri ainda que os ataques não são feitos pelos machos, mas pelas melgas, como são chamadas as fêmeas desses insetos. Nosso sangue serve para alimentá-las até a postura dos ovos. Tanto que vivem de 42 a 56 dias, enquanto os machos, totalmente dispensáveis após o coito, vivem apenas 10.

Se tivesse a oportunidade de conversar com esses ou essas “carinhas”, diria que se recolhessem à própria insignificância. Como pode seres tão diminutos provocarem tantos danos ao ser humano? Tenho até vergonha de comentar isso por aqui, mas enquanto nossos ancestrais sobreviviam na luta com mastodontes, tiranossauros rex, tigres dentes de sabre, lobos etc., vivemos (eu, pelo menos) nessa batalha diária contra pernilongos.

E pensar que sempre fui um sujeito do bem. Salvo um quiproquó aqui, outro ali, não lembro de ter cultivado inimigos no decorrer de mais de sete décadas de vida. Se os tive, esqueci de irrigá-los e eles, com certeza, feneceram pelo caminho. Até poderia passar por um desses budistas, por princípio, incapaz de fazer mal a uma pulga. Mas não sou tão religioso assim e tampouco estou a falar de inimigos humanos. Meu maior incômodo mesmo são esses do reino animal, cujo total deve passar de centilhões. 

Nunca peguei numa arma, mas com pernilongos eu não aliso. Como a melhor defesa ainda é o ataque, se vejo um no ambiente, mesmo que esteja distante, não sossego enquanto não dou cabo dele. Aqui, no condomínio, os vizinhos até já se acostumaram com o barulho dos meus tapas, quando tento eliminá-los. Depois dos inseticidas, repelentes e aqueles plugs que se coloca na tomada, minha última aquisição é uma dessas raquetes que eletrocutam os danados e deixam um cheiro insuportável no ar.

O ritual é sempre o mesmo. Sento-me na minha poltrona, pego um livro ou o celular e boto a raquete do lado. Às vezes, fico com ela na mão, como se estivesse à espera do saque do João Fonseca. Mas o bichinho percebe, é tinhoso. Se vê que estou à espreita, ele some. Esqueço e me enlevo na leitura, e lá vem ele de novo, sorrateiro, para o ataque. Num primeiro momento, não sinto nada. Quando começa a arder, já é tarde. Tento alcançá-lo, mas ele já se escondeu em algum canto para degustar meu precioso sangue.

Gosto de usar um bom perfume, mas ultimamente, até parei de comprar. Não adianta, o meu cheiro predominante sempre vai ser aquele do repelente. Inseticida até poderia funcionar, mas não dá para abusar, por causa dos gatos. Enquanto não encontro a fórmula ideal para acabar com meu inimigo nº 1, faço igual ao Trump na guerra contra o Irã. Anuncio nas redes sociais que sou o grande vencedor, mas bem lá no fundo, sei que a cada dia perco uma batalha… e alguns miligramas de sangue.

Manoel Dorneles

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