Bufa & Mimi 

Quando eu era moleque e jogava bola num campinho de terra batida perto de casa – muitos e muitos anos atrás – não poucas vezes tive de encarar um zagueiro do time de um bairro vizinho que tinha o arquétipo do bandido sanguinário: pose de mau, uma carantonha carrancuda, maltrapilho, rosto grande e anguloso, emoldurado por uma carapinha cor de ferrugem, e as medidas padrão de um armário-roupeiro de tamanho médio.

O time todo era de dar medo. Mas foi dele, que era conhecido pelo sugestivo e emblemático apelido Bufa, que guardei as mais doloridas e inesquecíveis equimoses. Como eu era pequeno e ligeiro, ele descobriu – e não cansou de usar – o único jeito de me parar. 

Encontrei-o novamente alguns anos mais tarde, já no início da idade adulta, e quase não o reconheci: trocara os andrajos por roupas finas, substituíra a carranca por uma expressão suave, e certamente não caberiam em seus gestos delicados as caneladas com que muitas vezes me recebera em tempos idos. 

Até o apelido era outro: passara a ser conhecido como Mimi. Havia-se transformado, não digo inteiramente – porque a metamorfose não chegava aos extremos de embelezar o rosto que recebera ao nascer – numa verdadeira moça. As duas versões da personagem que conheci, o bandoleiro Bufa e o feminino Mimi, Dr. Jekill e Mr. Hyde, foram para mim talvez o maior exemplo de contradição já visto até então na vida. 

Lembro-me sempre dele quando leio ou ouço manifestações de religiosos fundamentalistas, ou mesmo de psicólogos e médicos, discutindo a homossexualidade como doença e propondo opções de ‘cura’. Para provar a possibilidade, o descartável deputado Marco Feliciano chegou a identificar-se como um ex-gay, e afirmou que a psicologia poderia corrigir o ‘desvio de conduta’, ‘a aberração dissidente das leis de Deus’, como se elimina um trauma, um complexo ou uma sociopatia. 

Houve até uma tentativa de derrubar uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que definia: “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”   

Queriam os ultraconservadores – ‘fiscais do c(*) alheio’, como pejorativamente foram apelidados – impingir sua visão maniqueísta, retrógrada, preconceituosa e homofóbica a um conselho profissional que existe justamente para regulamentar e estabelecer condutas éticas aos profissionais de sua especialidade. Mas parece que o assunto morreu. Mesmo porque, segundo decisão de STF, a homofobia deve ser enquadrada hoje como crime de racismo. 

Não sei se me lembrar da personagem que cito no início do texto foi a comparação mais politicamente correta que eu poderia esperar de mim mesmo para comentar o absurdo e a pretensão do texto da ‘cura gay’, mas creio que, para manter-me dentro do conceito de ‘cura’ que os nobres deputados da ala xiita pretendiam impor, ela (a personagem) curou seu desvio de conduta quando deixou de ser marginal, sanguinário, bandido, obcecado por quebrar tíbias e perônios de jovens atacantes como eu.

Hoje, Mimi – que deve ser tão idoso quanto eu – não deve mais bater uma bolinha. Mas, se por um acaso ele entrou no papo do Marco Feliciano, virou um ex-gay e reincorporou Bufa, prefiro ficar na arquibancada, no caso de convite para uma partida!

Marco Antonio Zanfra

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