– Putz, como você reclama! Quer fazer o favor de poupar meus ouvidos de tantos xingamentos!
Acho que já ouvi essas palavras, ou alguma coisa no mesmo sentido, centenas, talvez milhares de vezes! Desde meus quinze anos eu já sabia que seria um velho reclamão! Nem precisei passar muito dos quarenta anos para que essa previsão se concretizasse! A culpa, acho, foi daqueles psicólogos de botequim que nos ensinam a não guardar nada de negativo em nosso coraçãozinho: bote tudo pra fora, pois o acúmulo de raiva pode transformar-se num terremoto físico e mental!
Sempre levei a sério esse ensinamento, e parece que isso ajudou a aprimorar minha intolerância. Costumo brincar que só não sou intolerante à lactose, mas nada mais me escapa! As vozes das pessoas na tevê, a pergunta idiota do repórter, as propagandas ridículas, a burrice, o trânsito, a religiosidade cega, políticos em geral… Cheguei a um ponto de me tornar intolerante contra minhas próprias fraquezas!
Mas, se os terapeutas de copo de pinga mandavam botar tudo para fora, uma pesquisa da Universidade de Stanford mostra o contrário, que o reclamão acaba se tornando uma pessoa tóxica quando as queixas deixam de ser objetivas e se tornam um hábito. Com o tempo, pessoas como eu tornam-se viciados em negatividade e podem sofrer uma reconfiguração neural, que privilegia o negativo e deixa pouco espaço para as coisas boas.
“Se, ao invés de ficar reclamando, você conseguir rir diante das pequenas agruras do dia a dia, sobra mais energia para solucionar as buchas reais que pintarem no caminho”, dizem os pesquisadores.
Eu acho que não dá mais tempo, porém. Se eu já era reclamão aos quarenta, tenho hoje trinta anos de experiência. Minha intolerância já criou calos. Acho que já me tornei aquela pessoa viciada em negativismo, um baita de um cara tóxico. Mas estou conseguindo dominar algumas situações: quando estou dirigindo acompanhado de minha mulher, evito reclamar dos outros motoristas. Deixo para fazer isso quando estou sozinho, e posso tratar aqueles cornos, filhos da p(*) e imbecis do jeito da p(*) do c(*) que eles merecem!




