Que me perdoe o leitor, mas não vai encontrar ‘tigres’ nesta crônica. Muito menos ‘três’. Porque, afinal, o texto trata apenas da terceira perna do tripé que sustenta o título: a tristeza. Não de tigres, mas de animais em geral, e cães em particular. O trava-língua do título foi usado apenas como uma espécie de muleta retórica.
A ideia de escrever sobre isso me pegou fracamente numa manhã destas, quando minha mulher comentou sobre o olhar tristonho dos cachorros de rua, dos cães abandonados. E voltou com força no final do dia, quando flagrei (e fotografei) a cena do cachorro à beira da estrada, velando o corpo do companheiro que acabara de morrer atropelado.
(Que me perdoe o leitor novamente, desta vez pela qualidade da foto; estava escurecendo, foi feita do outro lado da rodovia movimentada e, afinal, era a câmera de um celular de segunda linha!)
Fiquei em dúvida se o cão realmente sabia que o outro estava morto. Ou se esperava que ele estivesse dormindo e fosse acordar a qualquer momento, para continuarem seja lá o que estivessem fazendo, até que a jornada fosse brusca e violentamente interrompida por um motorista desavisado. Ou se, de repente, ele tinha plena consciência da morte do outro, e ficou ali, tomando conta do corpo, porque, afinal, amigos estão aí para isso!
Conheci um adestrador que acreditava que as demonstrações de carinho do cão pelo dono (odeio o termo ‘tutor’) não são sinais de amor, mas de conveniência. Eles são pragmáticos, segundo ele. Fazem você sentir-se amado para, com isso, não lhes deixar faltar nada. Para ele, o cachorro praticamente destronca a cervical, pula em seu peito e se enrosca em suas pernas não como demonstração de afeto ou alegria, mas apenas para ter garantido seu prato de ração premium no final do dia.
Nesse caso, dentro da teoria do pragmatismo canino, a alegria do animal não passaria de interesse, de conveniência. E se, ao demonstrar alegria, ele estivesse simplesmente exercendo sua vocação utilitarista, não teria sentido que, de outro lado, ele sentisse também tristeza. Porque isso não lhe garantiria qualquer vantagem ou recompensa.
A ciência diz que os cachorros não têm sentimentos, mas ‘emoções’. A psicologia define emoções como reações de puro instinto, do tipo que independe da racionalidade. “Sentimentos são uma coisa e emoções são outra. Enquanto o último equivale a respostas neuroquímicas e hormonais do organismo, o primeiro é uma reflexão sobre as emoções, que é única para cada ser humano”, segundo a definição.
Para dizer que cachorros têm sentimentos, eles teriam que ser capazes de pensar sobre suas emoções, e não apenas senti-las. Mas uma coisa não anula a outra: independentemente de poder definir ou não sobre o que estão sentindo, a ciência não nega que eles estão sentindo – e se manifestando corporalmente sobre isso. O cérebro canino não sabe explicar por que ele está feliz, mas ele está feliz. Da mesma forma com o reverso da medalha, a tristeza. Eles sentem, enfim, eles têm emoção. Os cães são ‘emocionados’, como a própria ciência define.
O cão da beira da estrada, por exemplo, vai ficar triste com a morte do parceiro até que a emoção por estar vivo sobrevenha.




