Estava eu recém acordando do soninho da tarde quando minha mulher me chamou para uma emergência: o gato tinha caçado um passarinho e estava em vias de esquartejá-lo dentro de seu quarto, quando ela intercedeu e trancou o felino para fora, e consequentemente para longe do pássaro agonizante. Ela mandou que eu recolhesse os restos mortais da ave e desse um fim neles.
(Parênteses necessários: sim, o gato tem seu quarto; aliás, é uma suíte, embora ele não tenha o hábito de usar o banheiro; eventuais hóspedes são obrigados a dividir o quarto com ele, e até hoje não houve queixas – nem dos hóspedes, nem do gato.)
Pois bem. Deck – este o nome dele (do gato, não do passarinho) – estava aflito na porta do quarto, querendo que eu a abrisse, provavelmente pensando em concluir suas ações pouco recomendáveis com aquele serzinho alado. Mas não abri. Ordem de mulher não se discute, cumpre-se. E eu tinha um pequeno animal, possivelmente em seus estertores, caso não totalmente falecido, para recolher.
Entrei no aposento, procurei pelos cantos, procurei embaixo da cama, procurei atrás dos móveis, e nada! Achei um monte de penas, mas só isso! Onde estaria o moribundo? Só depois de uns quinze minutos eu me lembrei de que pássaros voam, e de que talvez a vítima do Deck tenha juntado seus últimos espasmos vitais e alçado seu corpinho para um lugar onde, teoricamente, estaria mais longe do alcance das garras maléficas do predador.
Dito e achado! Ele estava em cima da estante, com um olhar assustado, mas vivo e em pé. Muito menos moribundo do que eu imaginara. Não sei se foi impressão minha, mas senti que ele me olhou como se visse em mim seu salvador. Quem estava prestes a defrontar-se com dentes afiados dentro de uma bocarra ameaçadora, há de respirar aliviado quando vê um idoso de olhar benevolente – no caso, eu – diante de si.
Era uma rolinha. E ela só reagiu assustada quando tentei capturá-la com uma sacola plástica. Voou para o outro lado do quarto, mas não foi difícil resgatá-la. Com a bichinha dentro da sacolinha de supermercado, fui até a frente da casa e soltei-a perto das árvores. Ainda que estivesse ferida, ela teve forças para voar e pousar nos galhos mais altos. Uma vida que se preservava – modéstia à parte, graças a mim!
O gato? Estava dormindo no sofá da sala quando eu voltei!




