Andar no Metrô paulistano é muito mais do que se locomover de um lado para outro. Descobre-se, todo dia, a imensa criatividade do brasileiro para pedir esmola.
Um rapaz com cerca de 30 anos, numa cadeira de rodas, conta que era entregador e dois bandidos tentaram roubar sua moto, acertando dois “projéteis” nele. Ficou paralítico e incapaz de ajudar a mulher a sustentar a casa e as duas filhas.
Pode parecer insensibilidade minha, mas não me comovo com a história decorada. Questiono, em pensamento, se é mesmo paralítico. Depois, que, mesmo numa cadeira de rodas, pode arrumar, sim, um trabalho.
Claro que sempre alguém dá dinheiro. Quando o trem para ele desce daquele vagão e entra em outro.
Tem um cego, com pouco mais de 40 anos, que encontro com muita frequência. Conta uma história bem triste sobre como se desesperou ao ficar cego. Daí, pede que as pessoas toquem sua mão – a que não está segurando a bengala, óbvio. Quem faz isso, passa algum dinheiro para ele.
Como o cadeirante, o cego também desce do vagão onde estava e sobe no seguinte.
E tem a mulher, com idade com não mais de 40, seguida por quatro crianças, entre 3 e 10 anos, todas bem-vestidas e com tênis de marca, impecáveis. Podem ser falsificados, diz minha filha. Sim, podem… A história é de que ela e as crianças passam fome.
A única emoção que senti foi quando um indígena, com uma flauta de pan (tubos), executou uma linda música. No chão, um chapéu surrado, para as doações. Não pediu nada, só nos brindou com um som maravilhoso. Não pude dar uma contribuição ao talento dele. Como a maioria dos brasileiros, só carrego cartão e celular. E o flautista não informou se tinha PIX.





Hoje em dia, todos eles têm Pix. Quando falou do cego, lembrei do Assis Ângelo, que ficou cego quase aos sessenta. A diferença é que ele não passou a viajar no Metrô pra pedir esmola!
Tem cegos produtivos e cegos oportunistas, da mesma forma que vemos com outros portadores de deficiências…