Ahhh, a doce rotina!

É engraçado como, depois de uma certa idade, a gente se apegue às rotinas do dia a dia, mesmo sendo uma pessoa que, até pouco tempo atrás, tinha como única previsibilidade do dia bater o cartão de ponto dentro do horário estipulado pela empresa. Já estou aposentado há dez anos, mas não faz muito tempo que reparei que esse comportamento rotineiro se transformou em, como posso dizer, rotina. 

São pequenas coisas, nada do que você perceba quando está desfrutando rotineiramente dessa rotina. Mas que você nota quando, mesmo que seja por um ou dos dias, se vê privado delas.

Isso pode acontecer durante uma viagem, ou durante duas diárias que você tenha merecido num SPA na Bélgica, sendo massageado pela Sidney Sweeney durante o dia e acarinhado à noite pela Margot Robbie! Mas pode ser também por compromissos de saúde prosaicos, mas obrigatórios, justamente por causa de sua ‘certa idade’.

No meu caso, como não costumo viajar – muito menos para um SPA em Liège, em companhia das moçoilas citadas acima – essa quebra de rotina costuma acontecer por ‘obrigações de saúde’. Ou ‘obrigação’ de saúde, já que é apenas uma ao ano, mas que se manifesta de uma forma que faria você mudar seus projetos de vida, ou do que resta dela, de hora em hora.

No meu caso, foi a obrigatoriedade da colonoscopia anual. Acho que é o exame em que você tem de estar na mais perfeita saúde para mostrar que não está doente. Como provar num banco, para conseguir um empréstimo, que você tem dinheiro suficiente para não precisar do empréstimo. Duvido que quem resista ao preparo para o exame não tenha saúde bastante para ser aprovado no teste.

Mas, voltando ao assunto rotina, talvez seja por ser necessário apenas uma vez por ano que ele afete tanto seu dia a dia. Se fosse feito mais vezes – toc! toc! toc! – talvez não bagunçasse tanto nossa vida! Mas são trezentos e sessenta e dois dias de vida normal e três em que você pede para morrer. O mundo deixa de fazer sentido. Você tem de abandonar tudo do que gosta nesses três dias. É chocólatra, como eu? Nada de chocolate! Adora um café? Esquece! Carne? Ah, nem pensar! É arroz com ovo e olhe lá!

Depois te obrigam a tomar um composto que vai varrer suas tripas, no caso de você conseguir não o vomitar antes que ele cumpra o roteiro de chegar às suas tripas. Isso, claro, com o estardalhaço que as cólicas costumam provocar. É a pior parte da preparação.

E aí chega a hora do exame. Entre as enfermeiras, você constata meio decepcionado que lá não estão nem Sidney Sweeney nem Margot Robbie. Te vestem uma bermuda larga cuja parte traseira esqueceram de costurar. Te enfiam um ‘acesso’ na veia, que é por onde vai ser ministrada a sedação, e finalmente você é sedado e acaba nem sabendo direito o que estão fazendo com os recônditos de seu ser.

Mas foi o dia seguinte que deu a ideia para esta crônica: parece que você começou uma nova vida. Parece que suas atividades corriqueiras foram executadas por outras pessoas. Como se você entrasse numa empresa substituindo alguém que tinha estado no cargo por vinte anos. Sua vontade de café e chocolate não existem mais com a mesma força que existiam quando eles lhe eram proibidos. Abrir a porta para o cachorro sair parece uma atividade fora de suas atribuições. Cortar as frutas para o café da manhã não deviam ser obrigações de uma empregada que nunca houve?

Acho que o curto tempo em que você foi sedado acaba atuando ligeiramente em seu raciocínio. Mexe um pouco com o arquivo das coisas que você faz naturalmente todas as manhãs. Você já era uma pessoa diferente durante o dia do exame, por que voltaria à normalidade depois de uma porção de química ter apagado artificialmente seu cérebro? Rotina é rotina, e qualquer quebra dela vai parecer que nem é você que está lá

Felizmente, isso passa, e você volta a ser o mesmo velho rabugento que odeia sair de sua zona de conforto. Terá mais trezentos e sessenta e dois dias normais. Mas juro que, no ano que vem, vou preferir os dois dias no SPA em Liège! 

Marco Antonio Zanfra

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