Vacinado, mas não muito

Dá para confiar na memória de um cara de sessenta e cinco anos? Diz a ciência que a memória começa a declinar aos cinquenta e essa derrocada se intensifica aos sessenta. Então, como esperar que, daqui a três meses – eu disse três meses! – alguém de sessenta e cinco anos vá se lembrar de que tem de tomar a segunda dose da vacina?

Dei azar, acho: com a CoronaVac metendo quatro a zero (em quantidade disponível) na concorrente, sobrou para mim a vacina da AstraZeneca!

Ressalvas?

1 – É a vacina preferida do estrupício-em-chefe; se dependesse dele, a Fiocruz seria obrigada a produzir quatrocentos milhões de doses para imunizar toda a população. Mas é claro que, se o Dória não tivesse cutucado a onça com a proposta da CoronaVac, sabe quando a Fiocruz iria preocupar-se com isso? Genocida que se preza é assim!

2 – A gente vive lendo por aí que alguns países estão interrompendo a imunização com a vacina de Oxford por causa de alguns intercursos nada recomendáveis. Falam em coágulos, algumas vezes fatais. Ainda que a porcentagem seja ínfima em relação à quantidade de doses aplicadas, quem tem sangue circulando nas veias tem medo!

3 – Três meses para a segunda dose!

Sei lá, posso considerar-me privilegiado por ter nascido antes de alguns outros, e por isso ter acesso mais cedo à imunização. Mas, depois de esperar ansiosamente pela minha vez de entrar na fila, senti claramente uma reversão de expectativas quando, já na aguardada fila, vi o que me esperava: três meses de espera.

A CoronaVac – que tooooodo mundo está tomando – pede a segunda dose vinte e um, ou, no máximo, vinte e oito dias depois da primeira. No meu caso, fui vacinado em 16 de abril e a segunda dose vai chegar só em 9 de julho. Até lá, é como se nada tivesse mudado, porque só com as duas doses é que se garante a produção de anticorpos suficientes. Como, depois das duas etapas, ainda é preciso aguardar quatro semanas para o organismo fazer sua parte, só vou poder me considerar imune lá por meados de agosto.

E ainda estamos em abril.

Não que eu tivesse alguma urgência, mas quem ainda aguenta viver sob a sombra do medo? Principalmente porque as internações continuam em nível alto, as mortes continuam em nível alto, os caras continuam aglomerando e desrespeitando normas sanitárias básicas em nível alto…

E a nossa defesa, ó, só em agosto!

Mas me queixar para quê? Tem muita gente que ainda nem tomou a primeira dose!

Marco Antonio Zanfra

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