Estava discutindo comigo mesmo sobre o conceito de obsolescência dos eletrodomésticos, e outros itens de consumo geral, e me perguntei: será que a definição não se adaptaria ao ser humano? Ainda não cheguei a uma resposta indiscutível, mas a tendência, pelo que observo e partir de minhas análises anteriores sobre o avanço de minha própria idade, é de que seja ‘mais ou menos’.
Por quê? Porque quando um produto industrial chega ao estágio de ser considerado obsoleto – isso dentro da categoria de vida útil – essa condição não tem volta. O destino do produto é o lixo, com as consequências ambientais que isso acarreta. Com o ser humano, não! Enquanto for possível ‘trocar uma peça’, a vida continua. Com restrições de desempenho, é claro, mas o destino ainda não é o lixo, ou algo semelhante.
Só não vai ter mais jeito, mesmo, quando for possível ler no obituário da figura que ela morreu por ‘falência múltipla de órgãos’. Ou seja, o corpo todo chegou à obsolescência. Não há troca de peças, recondicionamento de virabrequim, substituição de relês, rins ou pulmões que sustentem o mecanismo, ainda que por um curto período de tempo, também conhecido como sobrevida.
A obsolescência programada, segundo explica o mestre dos mestres Google, é uma estratégia industrial que determina a vida útil limitada de produtos, tornando-os propositalmente obsoletos ou inutilizáveis em curto tempo. O objetivo é forçar a substituição do item e maximizar lucros, impulsionando o consumo e gerando um alto volume de lixo eletrônico.
A diferença daí à obsolescência humana – que, além de tudo, está longe de ser programada; pelo contrário, quanto mais o mecanismo durar, melhor – é que a nossa não tem motivação financeira. Não visa lucro. Você não declara alguém obsoleto para ganhar algum na troca. E você não compra peças de reposição; elas são doadas. Doadores de órgãos, lembram-se?
A doação é feita por alguém que ainda não atingiu a obsolescência, mas, a despeito disso, não vai mais usar os próprios órgãos, por circunstâncias geralmente alheias à sua vontade. As doações são um alento à vida. O coração está com defeito? Tem peça de reposição. Seu rim não funciona? Ora, podemos trocá-lo por um seminovo. O fígado foi para as cucuias? Troque-o pelo de alguém que nunca tocou numa gota de álcool.
Isso, acho, responde à pergunta que fiz no início sobre nossa comparação com os eletrodomésticos. Eles atingem a obsolescência programada, são destinados ao lixo. Nós, não. Ninguém vai trocar o pai que está meio acabadinho por outro mais novo e mais moderno. Enquanto houver peças para trocar e um remendo aqui e outro acolá, a gente vai levando. Até que chegue a tal de ‘falência múltipla de órgãos’.




