Nevinho e mais 10

Na cobertura de um rali de motocicletas, chegamos para o pernoite na pequena Turmalina, Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Enquanto converso com um dos organizadores em frente ao hotel, aproxima-se um senhor, mineiro evidentemente, todo cheio de prosa. Observa o meu crachá e dispara:

–  Você é jornalista da área de esportes, não?

–  Sim, pois não?

–  João das Neves, ao seu dispor.

–  Muito prazer, seu João.

–  Acompanha o futebol mineiro?

–  Acompanho, sempre que sobra tempo.

– Conhece bem os times daqui?

– Falar a verdade, mais o Atlético, Cruzeiro, América, Caldense e um ou outro do interior. Por quê?

– Já ouviu falar de Nevinho?

– Ouvi, não. É daqui? Em que time ele joga?

– O Junior ou Nevinho, como é mais conhecido, é meu filho. É um atacante dos bons, um dos melhores que tem, mas não está no Brasil agora.

Fiquei curioso. Nunca ouvira falar, com certeza o rapaz não estourou em nenhum time grande do País. Sem que eu perguntasse, ele conta que atualmente Nevinho está “escondido” no ACV Assen, time da terceira divisão dos Países Baixos. Foi descoberto por olheiros do Atlético Mineiro, quando tinha seus 12, 13 anos. Levado para a capital mineira, frequentou as categorias de base do Galo até completar 18 anos.

Sem oportunidades no profissional, foi convencido por um empresário a se transferir para a Europa, com a anuência de seu pai, evidentemente. O destino era o PSV, de Eindhoven, um dos grandes times neerlandeses. Como era muito novo, foi emprestado ao Utrecht, da segunda divisão. Três anos depois, foi parar no time de Assen, cidade de pouco mais de 60 mil habitantes, ao norte do país.

Quando passei por Turmalina, Nevinho devia ter uns 24 anos. Fanático por futebol, e mais ainda, apaixonado (em dose dupla) pelo craque da família, seu João demonstra todo seu inconformismo.

– Olha, pelo que joga, Nevinho devia estar na Liga Inglesa ou então na Alemã, nunca na Holanda, ainda mais num time da terceira divisão. Ele tem futebol para o Manchester, o Liverpool ou o Bayern. Até o futebol da Itália ou França seria bom para ele.

Concordei, afinal, todo pai sempre acha que seu filho é melhor que os demais, mas ponderei que no mundo do futebol, infelizmente, nem sempre os melhores triunfam. É preciso ser bom, mas acima de tudo, ter sorte e um bom empresário.

– É, o sujeito que o levou não passa de um picareta. Está todo enrolado com a justiça mineira, por conta de alguns negócios escusos, e nem encontra tempo para cuidar de seus contratados.

– Hoje em dia, não dá para confiar em quase ninguém nesse meio – afirmei, mais a título de consolo.

– Vem cá, você que é jornalista, conhece todo mundo, não quer fazer uma entrevista com ele? Quem sabe, a matéria não estoura no Brasil, e lá fora, e aparece algum time grande interessado em contratar ele?

Concordei de imediato. Como naquela época, eu tinha contato com editores do setor de esportes de vários jornais, não seria difícil encaixar uma pauta dessas. Claro, teria que dar uma floreada, pois não estaria falando de nenhum jogador de ponta da Premier League, mas de um da terceira divisão dos Países Baixos, ou seja, zero interesse, pensei.

Peguei o contato do rapaz, com a promessa a seu pai de que iria ligar para ele tão logo retornasse a São Paulo. Poderia deixar pra lá, mas o mineiro era tão gente boa, e estava tão frustrado com o rumo tomado pela carreira do filho, que decidi não o desapontar.

De volta à base, certo dia, acertei o fuso horário e liguei para uma vídeo conferência. Nevinho acabara de treinar e descansava em casa. Muito solícito e brincalhão, falou que não adiantava nada tentar se esconder. Seu pai sempre dava um jeito de encontrá-lo. Expliquei o teor da matéria, ou seja, contar as peripécias de um jovem futebolista brasileiro em terras europeias. Não um atleta de ponta, desses que recebem todas as benesses e mordomias, mas um que sofre e, literalmente, come grama nos campos de uma terceira divisão.   

Nevinho riu, aparentemente, de nervoso. Mais calmo, retomou o jeitão mineiro.

– Desculpe, moço, mas acho que essa matéria não vai rolar.

– Por quê? A ideia é projetá-lo não só no Brasil, mas até na Europa. Quem sabe não conseguimos atrair a atenção de um grande time?

– Como eu posso dizer… não tenho intenção nenhuma de me transferir para um grande time. Estou muito feliz aqui em Assen.

Agora, realmente, estou pasmo. Quero saber os motivos que levam um jovem a abrir mão de um sonho, a limitar uma carreira, que até poderia ser mais bem sucedida.  

– Estou em um dos melhores países da Europa. Embora meu time seja semiprofissional, ganho relativamente bem. Aqui todo mundo me conhece.  

Enquanto ouço, penso que Nevinho saiu de Minas Gerais, mas Minas Gerais não saiu dele. Ele conta como é bom morar numa cidade de pouco mais de 60 mil habitantes, onde as pessoas se cumprimentam e conversam nas ruas e praças. Alguns de seus companheiros de time são ainda amadores e têm outras atividades. Um é bombeiro, outro professor, ah, e tem um alfaiate, personal trainer, e por aí vai. Apenas ele, mais dois sul-americanos, um coreano e dois holandeses vivem só do futebol por lá.

– Quando vou ao supermercado, ao banco ou ao shopping, cruzo com meus companheiros de time, no exercício das mais variadas funções. Tem um que é guarda de trânsito. Ele costuma ficar num dos principais cruzamentos da cidade, não tem como não o ver diariamente. Claro, aí sempre sobra uma piadinha. Para os moradores, torcedores da equipe, essa convivência diária também é normal.

– E as cobranças, antes e após os jogos, principalmente no caso de derrota?

– Taí, você levantou uma questão interessante. Comigo não há nenhum problema, sou o artilheiro do time. Mesmo nas derrotas, as pessoas me bajulam muito. Mas de forma geral, não há pressão nenhuma por parte dos moradores, nem mesmo quando o time perde, o que é bem comum por aqui.         

A situação do Assen realmente sempre foi desafiadora. Neste momento, por exemplo, é um dos últimos colocados na tabela. Ao longo de sua história, seus troféus mais importantes foram dois campeonatos amadores (1978 e 1986) e um da terceira divisão, na temporada 2022/2023.

– Todos querem ganhar, evidentemente, entre nós, todos se cobram muito, mas não fica clara essa obrigação. Existe uma espécie de acomodação por parte do clube, que acaba se estendendo também aos torcedores. Não é indiferença, tanto que eles estão presentes em todos os jogos, mas há um certo conformismo. Diferentemente do comportamento das torcidas do PSV, Ajax ou de qualquer equipe das grandes ligas europeias.

– Quanto ganha um atleta da terceira divisão como você?

– Não é muito se comparamos aos salários de jogadores do PSV, Ajax, Real Madrid ou Manchester United. Mas o que ganho é suficiente para eu viver bem aqui e ainda mandar um pouco para ajudar minha família.

– E o futebol brasileiro? Não pensa em voltar, de repente, para uma grande equipe de São Paulo ou do Rio?

– Até já houve algumas sondagens, mas não vale a pena. Não quero chateação, tenho certeza de que estou bem melhor aqui.

O termo “chateação” usado pelo rapaz, aqui no Brasil, pode soar quase como um eufemismo. São muitos os pretensos torcedores infiltrados nas chamadas torcidas uniformizadas para a prática de toda sorte de banditismo. Ameaçam ou agridem outros torcedores, atletas e até familiares deles. O caso mais recente se deu com o zagueiro Dória, do São Paulo, por conta de falhas em duas partidas. Não satisfeitos em atacá-lo, através das redes sociais, alguns desses pseudotorcedores chegaram a ameaçar também a mãe do jogador. Nem precisa dizer que ele solicitou ao clube sua rescisão contratual.   

– Nunca sonhou um dia vestir a camisa da seleção?

– Olha, eu até já vesti a amarelinha, quando jogava na base do Atlético, cheguei a sonhar com ela já adulto, mas hoje não me interessa mais. Não tenho mais paciência pra isso não. É muito marketing, muita performance e pouco futebol dentro das quatro linhas.

Há quase sete anos nos Países Baixos, João das Neves Jr. ou Nevinho já teve tempo suficiente para aprender a língua e acostumar-se com os padrões e costumes locais. Indago se continua solteiro ou se tem uma namorada no Brasil ou na Holanda.

– Pergunta difícil, viu. Não sou comprometido nem aqui, nem aí. Estou solteiro e pretendo permanecer assim por um bom tempo. Posso não ser um astro maior do futebol holandês, tampouco tenho o perfil de um galã de cinema, mas tenho meu fã clube aqui. Ô mulherada bonita, sô. Meu Deus do céu! Sabe aquela história do “tanto faz”? Difícil escolher, viu.

Me despeço do rapaz, muito grato pela sinceridade dele. Tenho certeza de que seu depoimento não irá impressionar nenhum empresário ou diretor de clube grande, seja do Brasil ou da Europa.  Ainda mais nos dias de hoje, em que jogadores se preocupam mais com o corte de cabelo, cremes pra pele, carrões, do que com o resultado do jogo em si. Nevinho não deixa de ser uma preciosidade.

Quando mais jovem cheguei a sonhar em ser um futebolista, jogar em um grande time e, quem sabe, até chegar à seleção. Mas, pensando bem, atualmente, me contentaria bem em ser apenas um Nevinho da vida. Claro, morando na Holanda, ganhando em euros, rodeado de tulipas e mulheres bonitas.

Manoel Dorneles   

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