O fruto desse ventre

Um garoto de oito anos desaparece sem deixar vestígios depois de um passeio na mata ao lado de onde morava. Dezenove anos depois, alguém que pode ser ele reaparece diante da casa de onde desaparecera, embora não saiba exatamente quem é. Tem lembranças esparsas do passado, mas não se lembra do desaparecimento nem onde esteve esse tempo todo.

A mãe tem certeza de que o filho voltara; a irmã, nem tanto. Buscando resolver o mistério sobre o desaparecimento/reaparecimento, ela contrata o ex-policial Marlowe e aí nosso personagem vai encarar o mais complicado, e mais dolorido, caso de sua carreira.

Este é o fio da história de meu próximo livro, que está ainda em fase inicial. Como pretendo privilegiar sua escrita no meu dia a dia, devo colaborar menos com o blog Contando História. Para compensar, dou uma palhinha sobre o que vem por aí com O fruto desse ventre (título provisório). A seguir, trechos do Prólogo:

Senti cheiro de terra ao acordar.

Não de terra batida por sol e chuva. Era de terra que recendia como se guardada numa gaveta. Tinha um suave aroma de bolor. E um gosto meio estranho. Minha boca estava em contato com o chão. Por mais que eu tentasse, não conseguia virar a cabeça para evitar que a terra se misturasse à minha saliva abundante e à minha língua.

Não sei quanto tempo fiquei desacordado. Nem sei onde estava. Nem por que estava lá, ou como chegara. Também não sabia exatamente quem eu era. Só sei que tudo doía. Do pé descalço à boca cheia de terra com gosto de gaveta. Meu joelho direito parecia destroçado. Em compensação, dali para baixo não sentia nada. Era como se a perna acabasse numa patela esfarelada.

Tive a impressão de que meus quadris haviam girado quarenta e cinco graus no sentido anti-horário. E que o pescoço rodara no sentido inverso. Entre o meio da barriga, o abdômen e o lado esquerdo do torso, tudo parecia misturado. Estômago, bexiga, baço, pulmões, esôfago… parecia tudo um grande refogado carregado de pimenta. Só o fígado, calejado pelos anos de treinamento à base de álcool, parecia não estar dando muita bola à dor. Mas os rins… 

(…)

Sobre minha cabeça, havia uma espécie de teto de madeira ao alcance do braço, caso eu conseguisse erguer o braço para tocá-lo. Havia pontos de luminosidade. Pequenas riscas de luz, como fendas na escuridão. Havia também o barulho de passos. Não passos pesados, mas também não sutis a ponto de não quererem ser percebidos. Concluí, dentro de minhas restrições cognitivas, que aquilo não era um teto, mas um assoalho. E que, consequentemente, eu estava jogado num porão. Mas por quê?

(…)

Para não dizer que o silêncio era absoluto, do lado de dentro eu ouvia os passos por sobre minha cabeça e uma voz abafada. Alguém conversando. Falando sozinho, ou pelo telefone, porque a voz era uma só. Palavras indistinguíveis, como se pronunciadas dentro de um vidro de azeitonas. Mas também podia ser porque meus tímpanos estivessem desregulados, como o resto do corpo.

Eu desconhecia se a voz de dentro do vidro de azeitonas sabia que eu estava ali. Não sabia se era uma pessoa conhecida ou não. Como podia ser desconhecida, eu não sabia se podia contar com sua ajuda. Dependendo, eu podia ser socorrido ou ignorado. Ou coisa pior. De qualquer forma, quando tentei emitir um som, um pedido de socorro ou coisa parecida, consegui produzir apenas um grunhido. E em tom ridículo, impossível de ser ouvido por quem quer que caminhasse acima de minha cabeça.

(…)

O silêncio foi rompido, de repente, pelo clangor de uma tranca sendo aberta, às minhas costas e a muitos metros de onde eu estava. O barulho do metal foi seguido de um ranger prolongado de dobradiças ressequidas. Ida e volta. Quem abriu o que quer que seja voltou a fechar. Podia ser uma porta. Podia uma janela. Podia ser um alçapão em algum ponto daquele piso que passava por sobre minha cabeça.

(…)

Os passos se aproximaram pelas minhas costas, pararam alguns segundos e começaram a contornar meu corpo desmilinguido, tomando o cuidado de apontar o foco da lanterna diretamente para meus olhos. Não consegui ver quem estava diante de mim, quando ele grunhiu:  

– Você ainda não morreu?

Tentei falar alguma coisa, mas não consegui destravar a mandíbula. A luz incidindo sobre meus olhos impediu que eu visse o rosto de quem me confrontou. Mas reconheci sua voz, e compreendi finalmente por que estava lá.

Marco Antonio Zanfra

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