“Ah, mas a gente não considera ela apenas uma empregada, ela é quase como se fosse da família.”
Quantos de nós não conhecemos famílias que ‘incorporam’ um serviçal no núcleo doméstico para fazer dela uma ‘escrava feliz’, uma espécie de mucama que tem regalias como um quartinho de dois por dois só seu, um colchonete, um banheirinho com ducha Corona, uma tevê preto e branco de cinco polegadas e um radinho de pilha?
Quantos não a deixam até comer na mesa da cozinha, desde que em horário que não atrapalhe a refeição dos patrões? E, claro, desde que não interfira em seus afazeres domésticos, como lavar e passar, limpar os banheiros, cozinhar o trivial e ajudar a cuidar das crianças. Para dar conta de tudo isso, é óbvio que ela tem de estar à disposição da casa todos os dias, de todas as semanas, de todos os meses.
Paciência! Afinal, fazer parte da família é uma ocupação em tempo integral. Que, às vezes, até rende um ‘salariozinho’ – ou seria uma ‘mesada’, já que é quase da família?
Quase sempre elas chegam novinhas, às vezes ainda menores de idade, muitas vezes semianalfabetas. Às vezes são uma segunda geração de uma empregada que viveu e morreu ali dentro, como quase um membro da família. Que futuro podem ter? Não há como estudar, porque a dedicação é integral; não há como namorar, porque um domingo livre por mês não segura namorado nenhum. Só lhes resta ser quase um membro da família até que a morte os separe.
Às vezes, acaba como esta mulher sexagenária que há 55 anos prestava serviços – sem ‘salariozinho’ ou ‘mesada’ – a três gerações de uma mesma família, num condomínio de luxo no Ceará! Seu único rendimento era a Bolsa Família, que os patrões recebiam por ela e lhe repassavam, sei lá se integralmente! Ela começara a trabalhar em 1971, quando tinha sete anos, e desde então vivia sem salário regular, sem acesso à educação e em condição de dependência econômica.
”Para a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a combinação de ausência de remuneração, dependência econômica e permanência compulsória no mesmo núcleo familiar desde a infância configura grave violação à dignidade humana e caracteriza trabalho em condições análogas à escravidão”, segundo matéria da Folha.
A fiscalização do trabalho calcula que a família lhe deva cerca de R$ 1,5 milhão, como acerto de contas. Ela deve ter garantido, pelo menos, o pagamento de todas as contribuições previdenciárias de todos esses anos, para que lhe seja garantida uma aposentadoria decente. Que deve ser desfrutada numa casa própria, de valor mínimo de R$ 150 mil, que ‘sua’ família terá de oferecer.




