Abacates

O homem ia caminhando pelo acostamento da rodovia com uma vara delgada e comprida equilibrada no ombro. Calculei uns cinco metros de comprimento. Numa das pontas, como um caminhão que sinaliza com uma bandeira vermelha quando a carga é maior do que a carroçaria, havia metade de um galão plástico, desses de carregar produtos de limpeza.

A impressão que eu tive era de que a peça, de um vermelho quase bordô, serviria para alertar as pessoas que caminhavam em sentido contrário, para que não dessem de cara com a tal vara.

Eu ia por trás dele e reduzi o passo ao chegar mais perto. O acostamento era estreito naquele trecho e achei melhor não correr o risco de dividir com o homem e sua vara o pequeno espaço disponível. Vai que ele se assustasse com minha presença e desse com a vara na minha testa!

Quando o acostamento ficou um pouco mais largo, apertei o passo e iniciei a ultrapassagem. Cumprimentei o homem ao passar e ele sorriu e perguntou “o senhor quer um?” Respondi “não, obrigado!” automática e protocolarmente, mas ele retrucou “o senhor não consome?”, e acabei olhando para o que ele oferecia: era um baita dum abacate, de um verde muito vivo, cheirando a frescor, que ele tirara de uma sacola enorme que carregava, e na qual eu não tinha reparado antes.

Reduzi a velocidade e avaliei: devia ter uns trinta abacates naquela sacola! Ao preço de R$ 5,00 o quilo, segundo preços cobrados no sacolão aqui perto de casa, ele faturaria, por baixo, uns R$ 150,00! Nada mau!

Ainda que continuasse não interessado no abacate que ele me oferecera, perguntei a quanto ele estava vendendo cada um, e ele sorriu: “Tô cobrando nada, não! Eu ganhei os abacates, não paguei nada por eles, e não seria certo cobrar das pessoas!”

Ele, na verdade, não ‘ganhara’ os abacates: foi limpar um terreno e, como parte do pagamento, o dono do quintal deixou que ele colhesse os frutos que quisesse de um abacateiro carregado. Só quando ele contou isso é que entendi o que era a tal vara. A parte do galão plástico não servia para sinalizar a carga, mas era o receptáculo que ele usara para colher os abacates sem precisar subir no pé – na ponta da vara estava adaptada uma pequena serra, com a qual ele ‘desprendia’ cada peça de sua colheita.

Ele podia – ou devia – vender seus abacates, já que ‘pagara’ por eles com seu trabalho. Mas ele parecia tão satisfeito oferecendo as frutas para quem quisesse que eu achei melhor não falar mais nada: a felicidade de certas pessoas custa tão pouco, que a gente se sente às vezes um pouco mesquinho em relação à vida e aos outros!

Marco Antonio Zanfra

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