O conto da feliz cidade

Acompanho sempre com o desconfiômetro ligado pesquisas, que saem do nada e levam a lugar nenhum. A mais recente “Hapy City Index”, do Institute for Quality of Life, colocou São Paulo entre as cidades mais felizes do mundo, a primeira da América Latina. A mais feliz de todas é Copenhague. Entre os critérios observados estão cidadania, governança, ambiente, economia, saúde e mobilidade. Recentemente, a pesquisa World’s Best Cities Report, da Resonance Consultancy já elegera São Paulo como a 18ª melhor cidade do mundo, com base nos critérios centro de oportunidades, cultura e serviços.

Nem me atrevo a indagar quem ou quais são os pesquisadores envolvidos nesse tipo de trabalho. Se cientistas sociais, antropólogos ou apenas turistas entediados com a vida no hemisfério de cima, extasiados com o exotismo dos trópicos. Seriam aparentados com os profissionais da revista britânica Time Out, que apontou o bairro paulistano do Bom Retiro como o 25º mais cool (descolado) do mundo? Falar a verdade, como faz tempo que eu nunca fui ao Bom Retiro, qualquer dia desses, vou passar lá para conferir.

De volta à nossa pesquisa, vamos focar primeiramente no quesito mobilidade. Terão os pesquisadores do Quality of Life ouvido apenas os farialimer’s (*) ou entrevistaram dona Maria das Dores, que mora no extremo da Zona Leste e trabalha de faxineira em um escritório da Avenida Paulista? Enquanto os primeiros atravessam a rua, pegam o metrô ou o Uber e, meia hora no máximo, estão no trabalho, ela demora no mínimo três horas para chegar. E outras tantas para ir embora.

Teriam esses profissionais, antes de passar por aqui, estudado Eistein, para quem “uma vida tranquila e modesta pode trazer mais felicidade do que buscar o sucesso incessantemente”? É evidente que dona Maria deve levar uma vida modesta, mas dificilmente terá tranquilidade e será feliz, diante de sua a rotina. Fora o baixo salário e as questões domésticas – marido alcoólatra, filho viciado em drogas, entre outros –, ela chega em casa quase meia noite, para estar de pé no outro dia às seis da manhã.

Não nasci na capital paulista, mas cheguei à cidade por volta dos oito anos, portanto me considero paulistano de criação. Conheci uma outra São Paulo, da garoa, romântica, ainda sem poluição. A mobilidade era precária, com poucos ônibus, bondes e trens de subúrbio, mas o trânsito fluía, com poucos carros nas ruas. São Paulo acolhia migrantes de todas as regiões do Brasil, oferecia trabalho e todos tinham o que comer e onde morar. Não existia tanta gente passando fome e jogada nas ruas.

A cidade pagou muito caro pelo desenvolvimento. A população quase quadruplicou, em relação aos anos 1960. Se o progresso beneficiou uma minoria de paulistanos, ceifou as oportunidades da grande maioria deles. Somem-se a isso os mandos e desmandos de administrações públicas nem sempre comprometidas com os anseios populares. Há um clima de insegurança pública em cada rua, em cada esquina.

Em linhas gerais, esta é a São Paulo avaliada pelo pessoal do Quality for Life. A pesquisa envolveu 251 cidades em todo o mundo. A capital dos paulistas ficou em 161º lugar, à frente de Nova York (207ª) e Dubai (165ª). Buenos Aires ocupa a 189ª posição (chupa, hermanos!).  Pelo visto, praia, sol, calor nada interferem nessa questão da felicidade, pois, além de São Paulo, só foram selecionadas mais duas cidades brasileiras:  Curitiba (197ª) e Belo Horizonte (219ª).

Por mais incrível que pareça, o Rio de Janeiro, nosso principal cartão postal no exterior, ficou fora da lista. Evidentemente, essa exclusão não parece ter agradado muito aos cariocas. A pesquisa foi um dos temas de um dos últimos programas Papo de Segunda, do canal GNT, gravado no Rio, cujos apresentadores são cariocas ou radicados no Rio. Em vez de se posicionarem contra ou a favor da escolha de São Paulo, o que seria muito justo, eles se limitaram a falar das vantagens de morar, na chamada Cidade Maravilhosa.  

Também acredito que o Rio de Janeiro continua lindo, além de um dos melhores lugares do mundo para se viver, desde que na Zona Sul ou na Barra. Se a pesquisa tivesse apontado o Rio, em vez de São Paulo, com certeza, eu iria aplaudir. Só faria algumas ressalvas. Da mesma forma que a dona Maria, do extremo leste paulistano, o morador dos morros e subúrbios cariocas passa por inúmeros perrengues diários. Não só problemas de mobilidade, como também da falência dos órgãos públicos, infraestrutura precária e, principalmente, o da segurança pública.

Infelizmente, trata-se de uma cidade onde não se sabe onde começa a polícia e onde termina a bandidagem. No meio do caminho, ainda predominam as milícias. Dito isso, o espanto dos cariocas com o aparente sucesso de São Paulo não pode ir além das areias do Leblon, de Copacabana ou dos estúdios da Rede Globo. Não pode, sob nenhuma hipótese ser causa de rancores, ironias ou inveja. Afinal, nem paulista e nem carioca pode ser feliz, diante de tantas mazelas que afligem, num grau ou noutro, as duas cidades.

(*) Para quem não é do eixo Sul/Sudeste, “farialimer’s” são os empresários e executivos que transitam pela rica e dinâmica região da avenida Faria Lima, zona sul de São Paulo.     

Manoel Dorneles  

Um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *