Não sou propriamente um exímio nadador, mas me viro e reviro bem dentro d’água. Dia desses, decidi seguir o conselho do médico, para que eu me dedicasse mais à natação, como forma de alongar e preservar a musculatura. Melhor do que a corrida, na opinião dele.
Primeiro dia de aula, em um clube perto de casa, após o aquecimento de rotina, lá vem o professor com algumas dicas. Como eu lhe dissera antes que achava a natação um esporte solitário e enfadonho, ele aconselhou: “Você pode se distrair durante o percurso contando os azulejos.”
Não tive dúvidas. Cai na água da piscina semiolímpica, 25 metros, e passei a contar os azulejos do fundo. Não me lembro bem quantos, acho que uns cento e poucos. A orientação era de que eu fosse e voltasse quantas vezes aguentasse. Fui uma vez, retornei, saí da piscina e nunca mais voltei. Oh trem chato.
Lembro que aprendi a dar minhas primeiras braçadas na marra, por assim dizer, ali pelos meus 8, 9 anos. O suficiente para não morrer afogado. Mas, com certeza, bem mais excitante do que a aula no clube.
Morava eu na zona leste paulistana, pertinho de onde hoje ficam o Shopping Itaquera e o estádio do Corinthians. À época, ali eram só eucaliptos nos terrenos do então INPS e algumas pedreiras desativadas.
A água das chuvas se acumulava no buraco deixado pelas empreiteiras, após a extração das pedras, formando várias lagoas. Era onde a molecada se divertia nos dias de calor.
A gente chegava na beira do barranco. Aos menorzinhos, meu caso, a única opção era pular. Se não pulasse, os maiores empurravam de qualquer maneira. E aí, era um salve-se quem puder.
Aprendi assim, “malemá”, mas sobrevivi, felizmente. Vez ou outra, a gente ficava sabendo de um ou outro menino e até adultos que, ao pularem, bateram a cabeça em alguma pedra. Aí, não tinha jeito.
Nas ocasiões em que morria alguém, a gente ficava proibido de sair na rua por um tempo, fora os sermões das mães para que não fôssemos até as lagoas. Mas, quem obedece?
No colégio interno, tinha piscina, onde nadávamos nos finais de semana. Aproveitei para aprimorar meus “estilos”, crown, borboleta, peito, costas etc. Brincadeirinha, sempre fiz o suficiente para chegar de uma borda até a outra.
Peraltices de moleque à parte, na vida adulta sempre tive o maior respeito pela água. A do mar, então, nem se fala. Evito ao máximo ir muito ao fundo. Tenho muito medo de câimbras.
Ao correr pela praia, em Santos (SP), acompanho o treino de alguns nadadores, além das ondas. Dou o maior apoio. Também torço pela campeã olímpica Ana Marcela, que costuma treinar por aqui. Só de assisti-la, em Toquio, a nadar 10 quilômetros mar adentro, já me cansei.
Se nunca tive nenhum perrengue no mar, o mesmo não posso dizer de rios. Já passei por alguns apuros, daqueles em que você chega na margem e pensa “só não fui porque não chegou a minha hora”.
Estávamos eu e alguns jornalistas no Jalapão, Tocantins. Acampados às margens do rio São João Novo, decidimos fazer um acquaraid. Consiste em descer as corredeiras sobre duas boias em forma de banana.
O seu ponto de apoio são as duas alças sobre as boias, as quais você se agarra com as duas mãos. É comum as boias escaparem ao baterem em alguma pedra, e você ficar à deriva. O jeito é recuperá-las e retomar o trajeto.
Fora uma ou outra queda, desci bem um quilômetro e meio do percurso, que termina em um grande poço. Perdi minhas boias justo nesse ponto e fui para o fundo. Bem fundo.
Cansado, após a descida, afundei e passei a dar braçadas aleatoriamente, achando que não teria mais fôlego para subir. Para minha sorte, fui levado para uma das margens, onde mãos amigas me puxaram. “Ufa, ainda não é a minha hora”, pensei.
Por mais que a pessoa saiba nadar, a água do mar, lagoa ou rio sempre poderá surpreendê-la. Poucos são capazes de enfrentar a correnteza como os meninos ribeirinhos do Pará, na altura da ilha do Marajó, por exemplo.
Não sei se ainda funciona assim, mas eu os vi durante a viagem que fiz de São Paulo a Manaus, anos atrás, parte de caminhão e o restante de balsa, através do Amazonas. Com idade entre cinco e sete anos, eles usam pequenas canoas para acessar as balsas onde viajam as carretas e os caminhoneiros.
Nesse trecho, apesar de o rio ficar mais estreito, dividido em vários braços, as águas se tornam mais rápidas e perigosas. Eles sobem a bordo com o auxílio de cordas atiradas pelos tripulantes para vender açaí e camarão seco.
Difícil não comprar, diante de tanta coragem e destreza. Após a venda, alguns deles pulam na água e nadam até a margem. Assim, de brincadeira, como se estivessem na piscina de casa.
“Eles começam a nadar logo no primeiro dia de vida”, brinca um caminhoneiro. “A mãe joga eles na água, os que voltam à superfície, estão batizados e prontos para enfrentar essa vida”, acrescenta. E eu, hoje, concluo: “Bem melhor do que contar azulejos.”





Belo texto! Eu já estava cansado de ler os meus!