Pode parecer um sonho, um delírio, ou uma baita mentira, mas juro que foi real e verdadeiro: outro dia, vi uma mosca pousada sobre a cafeteira e decidi que ela estava com os dias – ou os segundos – contados. Fui apanhar o mata-moscas, que eu chamo carinhosamente de ‘Plaft!’, e fui em direção a ela, sorrateiramente, pé ante pé, olhar fixo no alvo.
Acontece que a dita cuja estava de frente para mim, e não existe posição menos estratégica para matar uma mosca do que pegá-la de frente, ela vendo o que você está fazendo e, na hora agá, escapando pelo ar e rindo da sua cara. Por isso, fui tratar de contorná-la, ainda andando lentamente, como um caçador cercando sua presa. Mas – e juro que isso é verdade – a cada passo lateral que eu dava, a bichinha fazia o mesmo. Era um passo meu, um passo dela, como um tango sincronizado, a mosca mantendo o olhar fixo em seu predador. Foram três passos de cada um dos personagens da dança.
Jamais pensei que eu chegaria um dia a me chamar de predador, mas pensei em Darwin e na teoria da evolução das espécies ao observar que ela havia evoluído a ponto de observar as ações de seu agressor, para organizar a defesa ou a fuga. Não sei o quanto lhe valeu essa evolução em termos de sobrevivência, já que uma mosca doméstica vive apenas de quinze a trinta dias. Mas, mesmo que ela tenha recebido de bônus apenas um dia, já valeu pelo confronto, dentro dos conceitos diminutos de seu cérebro.
Imaginei uma reunião de moscas mais tarde, e ela contando a suas parceiras como tinha escapado da morte ao perceber a aproximação do inimigo e utilizar a tática da observação para enfrentá-lo. “Mais do que escapar de morrer, eu consegui humilhá-lo”, ela contaria, e todas ririam muito da minha cara! Não existe nada pior para um predador do que ser humilhado por sua presa
Segundo o Google, há cerca de dezessete milhões de moscas para cada ser humano no planeta. Como somos mais ou menos oito bilhões, nem quero gastar zeros para chegar ao total do mosquedo. Se um milionésimo delas chegar ao grau de evolução daquela com quem tive o desprazer de me defrontar, nós é que estaremos com os dias contados.




