Quando encontrei o vagalume ele já estava vacilante. A luz do abdômen já se acabara. Só mantinha duas luzes fracas nas costas que pareciam dois olhos verdes iluminados. Ainda queria iluminar nossas noites, uma pequena lanterninha no nosso mundo, mas nós já não precisamos dele. Criamos luzes bem mais poderosas do que a Lua Cheia. As explosões nucleares, por exemplo.
Li que os vagalumes devem desaparecer da Terra em mais ou menos 30 anos. Eles viram tudo acontecer no nosso planeta. Assistiram à vida e à morte dos dinossauros, viram nascer as primeiras plantas com flores, viram a separação dos continentes, assistiram à diversificação dos mamíferos e das aves, viram aparecer o homo erectus que se espalhou pela Ásia e dominou o fogo, dois milhões de anos atrás. E agora é ele, o pequeno vagalume, que está com os dias contados.
Fico pensando no livro “Orbital” da Samantha Harvey. Lá ela diz: escolha uma única criatura sobre o nosso mundo e a história dela será a história de todas as criaturas que vivem na Terra.
Esse livro conta a história de seis astronautas vivendo numa estação espacial a 400 quilômetros de altura. Na verdade, num lugar onde já não se pode mais falar em altura. Entre os astronautas está uma japonesa, filha de uma mulher sobrevivente da bomba de Hiroshima, lançada pelos Estados Unidos no fim da segunda guerra, em agosto de 1945. A bomba era só um recado dos norte-americanos para os soviéticos verem do que eles eram capazes. Morreram cerca de 100 mil japoneses instantaneamente. A mãe da astronauta, então um bebê de colo, sobreviveu. Oitenta anos depois, enquanto a japonesa astronauta está no céu, a mãe morre na Terra e deixa uma carta para a filha.
“Minha primeira e única filha, você pode se deslumbrar com esses homens andando na Lua, mas não deve jamais esquecer qual é o preço que a humanidade paga pelos seus momentos de glória, porque a humanidade não sabe quando parar, não sabe quando dizer chega…”




