O pastelzinho devolvido

Tem um bar aqui em Florianópolis, dentro do Mercado Público, que adota uma prática simples para incentivar o consumo de seus petiscos: se você pede um pastelzinho de camarão, por exemplo, as garçonetes colocam dois pasteizinhos na cestinha, apostando que, graças à satisfação pela qualidade do produto, você vai comer o segundo automaticamente.

A maioria da clientela efetivamente devora também o segundo pastel – e até pede mais. Mas é claro que o consumo não é obrigatório, e o pastelzinho pode ser deixado na cestinha. O que nunca aconteceu, e parece que nem vai acontecer, é o cliente pedir um pastel e deixá-lo intocado na cestinha, como se não tivesse nada com isso.

Lembrei-me imediatamente do ‘Box 32’ quando soube da história do casal do Paraná que simplesmente devolveu o ‘pastel’ que havia pedido e foi embora, sem dar qualquer explicação ou justificativa. O pior da história é que o que eu estou chamando de pastel não é um pastel, mas uma criança de dez anos, que estava em processo de adoção.

O casal simplesmente desistiu de adotar o menino e o abandonou no fórum.

Melhor seria para o garoto se ele fosse mesmo apenas um pastelzinho de queijo!

O casal paranaense estava em processo de adoção e convivia com o menino já havia quatro meses, ainda dentro do estágio de convivência. Desistiram da adoção por “situações de desobediência e falta de afetividade”, segundo afirmaram depois. Isso não impediu de serem condenados pelo abandono da criança “de forma degradante, cruel e violenta”, de acordo com o Ministério Público.

O ‘pastelzinho’ voltou para a entidade assistencial de onde saíra apresentando crises de ansiedade, além de desenvolver um sentimento de autodepreciação, retraimento, agressividade e baixa autoestima, também de acordo com o MP. O casal foi condenado a pagar uma indenização de R$ 37 mil ao pequeno, por danos morais. Acho que não há como ressarci-lo pelos danos psicológicos.

Só para comparar: se os dois tivessem abandonado um cachorro na rua podiam ser condenados a uma pena de dois a cinco anos de reclusão.

Marco Antonio Zanfra

Um comentário

  1. Falando em pastel, aqui em Porto Seguro é muito comum o “pastel espírita”… já vem desencarnado!

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