Creio que muita gente – eu inclusive – gostaria de isolar-se do mundo, cada vez mais caótico, irrespirável e insuportável. Arranjar uma ilha deserta para morar, por exemplo. Longe de vizinhos chatos e barulhentos, longe do trânsito, do atropelo das ruas, isento de impostos e taxas e infenso à patrulha da sociedade hipócrita.
Já pensei muito nisso. Lógico que meu desejo não chega ao ponto de tornar-me um eremita. Na minha ilha deserta imaginária, deve caber mais alguém próximo de mim – a mulher e o cachorro, se muito – e nem é possível que seja totalmente isolada da civilização: se não tenho condições de prover minha própria subsistência, é preciso abrir mão de minha solidão para fazer supermercado, pelo menos uma vez por mês. E para isso, claro, preciso de um barco para o transporte. E gasolina para o motor
De resto, é a paz do marulho, o aroma do oceano e o chilrear dos pássaros. Eletricidade? Pode ser fornecida por placas fotovoltaicas. Ou por um gerador, alimentado com a mesma gasolina comprada para o barco. Tem vida melhor?
Seria o paraíso antes de Adão e Eva! Ninguém para te encher o saco, para te dizer o que fazer, ninguém tocando música irritante em alto volume, reclamando que as folhas de sua palmeira estão passando por sobre o muro, nenhum vizinho reclamando que suas xefleras fazem sombra sobre sua varanda, nenhum gato indesejável passeando por seu telhado, nenhum cachorro neurótico latindo na sua janela…
Para algumas pessoas ditas pragmáticas, entretanto, viver nesse paraíso perdido tem um grande porém: o que fazer no caso de você sofrer um mal súbito, um acidente vascular cerebral, um infarto, uma síndrome respiratória aguda grave? Não vai ter um pronto-socorro na sua ilha, certamente. As ervas medicinais são eficientes apenas para certos males. E, a menos que você mantenha por perto uma mini-UTI – e, claro, tenha pessoal treinado para sua operação – você vai estar aos Deus dará.
Pois eu tenho resposta para isso: quando chega sua hora, não é a proximidade do socorro que vai garantir sua sobrevivência! A morte não tem GPS! Ela chega chegando! A Indesejada pode te alcançar tanto em sua ilha deserta quanto dentro do elevador do Incor!
Exemplos: minha irmã morreu no centro da cidade onde morava, na porta de entrada de um consultório médico; meu amigo Zé Luiz Lima morreu no banheiro da Assembleia Legislativa de São Paulo; esse estudante da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, procurou duas vezes o atendimento médico e acabou morrendo sozinho, no alojamento, por erro de avaliação da equipe do hospital. Os três estavam em locais próximos de socorro. Nenhum estava numa ilha deserta. Essa proximidade serviu para alguma coisa?
Pois bem, acho que isso encerra a discussão. Os exemplos que citei são o que de mais próximo encontrei, mas creio que haja muitos outros. Morrer todos vamos. Não há como adiar. Então, por que não esperar a Indesejada deitado numa rede, ouvindo apenas a brisa beijando as folhas do único coqueiro de sua Ilha deserta?




