Minha filha mais nova vinha há mais de ano pegando no meu pé para que eu entrasse num programa de ginástica. Segundo dizia, a partir de certa idade você perde massa muscular e pode chegar a uma doença cujo nome lembra uma coceira. Chegou a me presentear com um pote de creatina, para preservar o pouco que tenho de músculos rodeando os ossos…
Eu sempre argumentava que, como andarilho desde criancinha, minha atividade física garantia a sobrevivência do que quer que estivesse rodeando meu esqueleto.
Mas aí eu fui ao posto de saúde do bairro, fazer uma consulta sobre minha pressão – spoiler: está tudo bem, segundo a médica, para um ‘corpinho de quase setenta anos’ – e o que era apenas a recomendação insistente da filha ganhou um upgrade e virou praticamente uma ordem médica: a partir dos sessenta, o corpo para de produzir músculos e você tem de tratar de incentivar o pouco que tem a retomar a produção.
Caso contrário pode chegar à sarcopenia – a tal doença que eu falei que lembra uma coceira – que é a perda progressiva e generalizada de massa, força e função muscular esquelética, o que causa fragilidade, reduz a mobilidade, aumenta o risco de quedas e limita atividades diárias (thanks, Google!). Caminhada faz bem para a circulação e o coração, mas não produz músculos. Nem nas pernas.
Solução para isso, segundo ela: musculação.
Aos quase setenta. A alguém que entrou pela última vez numa academia no final dos anos 80, e que era obrigado a ouvir do chefe Carlinhos Brickmann, do alto de sua estrutura física, que musculação era ‘coisa de boiola’. Não teria outra solução?
Pois então tratei de procurar uma academia perto de casa. Cheguei timidamente, como um velhinho esquelético, e dali a dois dias estava eu lá, submetendo minha esqualidez ao cross over, ao leg press, ao peck deck, à remada baixa… Quando terminei, no primeiro dia, senti que minhas pernas e meus braços não estavam conversando entre si. Achei que não conseguiria sair da cama no dia seguinte, mas, para meu espanto, não senti dores. Acho que não tinha músculos para doer.
Claro que sou um estranho no ninho, ali dentro. Um idoso magricela no meio de um monte de jovens sarados. Tem uns poucos algo mais avançados na idade – uma senhorinha de cabelos totalmente brancos lembra minha mãe – mas ninguém, certamente ninguém, tem a mesma quilometragem que eu. Por isso, só me resta refugiar-me no meu mundinho, não olhar para os lados e só conversar o essencial com os professores. Quando mais tarde eu for sarado, quem sabe me enturme…




