Morrer na média

O IBGE anunciou que a expectativa de vida do homem brasileiro chegou a 73,3 anos em 2024. Pois imagine o caro leitor – homem, é claro – mediano e seguidor contumaz do que é definido pelas regras, que ele morra exatamente quando completar, sem um décimo a mais ou a menos, os 73,3 anos calculados pelo instituto!

O IBGE, claro, vai lançar uma edição especial de seu anuário, enaltecendo a própria fórmula de tabular dados estatísticos. Nisso, vai ser secundado pelo governante da vez, parabenizando-se pela criação do órgão – que, vale lembrar, foi criado em 1936, e, portanto, já teria morrido segundo seus cálculos – e garantindo que o levantamento só obteve precisão porque os técnicos e o próprio instituto estão sendo devidamente irrigados financeiramente pelo governo.

 A oposição, por seu lado, vai colocar em dúvida se o leitor morreu mesmo naturalmente, ou se a família recebeu um agradinho – do IBGE, suponho – para envenená-lo e dar a credibilidade necessária para que o órgão deficitário continue sendo molhado pelo suado dinheirinho do povo, e não seja preciso desmontar o conhecido cabide de empregos em pleno ano eleitoral.

O falecimento também terá seu lado positivo: o leitor será considerado ‘o morto do ano’ e o serviço funerário oferecerá gratuitamente todas as exéquias, com caixão de cedro e alças de bronze trabalhado. A efeméride será estampada em todos os jornais e merecerá página especial no Almanaque Renascim, oportunamente renascido para o evento fúnebre.

Os astrólogos não perderão a oportunidade de criar um mapa astral póstumo do falecido, indicando que os astros previram sua morte desde o dia em que ele nasceu. Uma vidente também anunciará ter feito uma consulta, a pedido do morto, que previra, nessa consulta, sua passagem para a eternidade exatamente ao completar os 73,3 anos. Como o leitor não estará mais lá para contestar a vidente, um espírita colocar-se-á à disposição para psicografar a confirmação ou o desmentido dele.

Esses serão, para o querido leitor, os quinze minutos mundiais de fama que Andy Warhol preconizou para a humanidade. Pode ser bom. Mas eu dispenso tal honraria. Minha expectativa de vida, espero, deve chegar pelo menos aos 95 anos – que é quando eu vou conseguir ter de volta os 35 anos que a Previdência tomou de mim.

Marco Antonio Zanfra

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