Monstros, bem perto de nós 

Temos a tendência de achar que os crimes não nos afetam, porque não acontecem perto de nós, nem com conhecidos. Talvez seja uma forma de defesa, sei lá. 

Lemos e ouvimos, todos os dias, sobre assassinatos, abuso de menores e adolescentes e outros crimes. Ficamos revoltados, até nos engajamos em campanhas, mas sempre pensando, egoisticamente, “ainda bem que não é comigo nem com quem amo”. 

Ledo engano! Os monstros convivem conosco e nem sabemos. 

Ainda tento processar a notícia que me deram, há alguns dias, e não consigo. Vou contar a história, mudando um pouco os personagens, para que não possam ser identificados. O fato, porém, permanecerá inalterado.

Um casal de amigos me acolheu na família, muitos anos atrás. Amo todos eles e tinha um entrosamento especial com o filho caçula, de 25 anos. 

A família também acolheu outras pessoas solitárias, entre elas uma mãe solteira e sua bebê. Tratada como neta pelo casal, a bebê cresceu naquela casa, recebendo amor e atenção de tios e tias improvisados, sempre sob a guarda de um deles, quando a mãe ia trabalhar. 

Aos 5 anos, ficou vários dias com o “tio” caçula, exatamente aquele de quem eu era mais próxima. Como eu, a mãe confiava nele.

A garotinha tinha um tablet e, com o equipamento, gravou o “tio” fazendo ameaças de agressão. Uma clara prova de abuso moral! 

A mãe, imediatamente, a afastou da casa dos avós postiços e a colocou na terapia.  Mas só muito tempo depois, com a assistência de um psiquiatra, a garotinha se abriu totalmente. Contou, em detalhes, que sofreu abuso sexual daquele monstro por quem tínhamos tanto apreço!!!

Informada sobre os abusos, a mãe do rapaz, o que fez? Providenciou a mudança dele para a Bahia!!! Isso mesmo: o pedófilo foi morar e trabalhar na BAHIA, onde curte a vida boa que só a Bahia tem e… convive com muitas outras crianças, a maioria sem os recursos e orientações da garotinha abusada no Tocantins. 

O laudo do psiquiatra servirá de base para o processo e a prisão do pedófilo. Como a Justiça é lenta e o pai, advogado, ele tem a chance de abusar e até de estuprar outras menores, antes de pagar pelo crime cometido no Tocantins. 

Sim, o monstro estava ao nosso lado e eu e a mãe da garotinha nem percebemos… Caiu por terra minha defesa mental sobre os crimes serem distantes. Eles são reais e, cedo ou tarde, nos atingem, como uma faca que dilacera o coração e leva embora nossa vida.

Célia Bretas Tahan

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