Escravos da embreagem

Quando criança, eu sonhava em ser motorista de ônibus! Sério! Minha ideia era parar de estudar quando completasse o quarto ano primário e, devidamente alfabetizado, esperaria chegar a idade para tirar a carteira de motorista e me qualificar para sentar-me ao volante de um daqueles monstrengos que circulavam por meu imaginário. Até escrevi sobre isso aqui mesmo neste prestigiado blog (https://contandohistoria.com.br/e-a-o-v-pirituba/). E por que não deu certo?

Porque um certo senhor Armando, usando de suas prerrogativas de pai, simplesmente impediu o prosseguimento de meus planos mirabolantes. Ele foi tão convincente em barrar a arquitetura de minha vida profissional que, ao atingir meu ponto de ruptura com o vínculo escolar – o tal de quarto ano do primário – eu já nem me lembrava mais de que meu sonho era ser motorista de ônibus.

Acabei não abandonando a escola. Fiz o ginásio, o colégio, a faculdade… E hoje estou onde estou, agradecendo ao seu Armando por ter me mostrado que, aos dez anos, eu não tinha condições de projetar meu futuro. Hoje, mal aguento dirigir meu carro por mais de uma hora no trânsito caótico, o que seria de mim se tivesse de ficar por seis horas diárias controlando um bicho do tamanho de um ônibus?

E seguindo sempre o mesmo caminho, as mesmas ruas, os mesmos buracos, o mesmo sol inclemente, os mesmos passageiros irritantes reclamando da vida, parando a cada quinhentos metros, suando feito um filtro de barro, enfrentando motoristas que não respeitam o tamanho de máquina, desviando de ciclistas e motociclistas que desconhecem o poder desconstrutivo de um ônibus, parando, arrancando, parando, arrancando… um verdadeiro escravo do pedal da embreagem!

Meus estimados leitores já imaginaram o que seria passar dia após dia conduzindo uma centena de passageiros a cada viagem, ouvindo as mesmas lamúrias, aguentando as centenas de neuroses diferentes que orientam as centenas de motoristas que compõem o teatro do trânsito? Não? Pois seria pior ainda se suas seis ou mais horas por dia fossem passadas atrás do volante de um caminhão de coleta de lixo!

Se um motorista de ônibus para a cada quinhentos metros, o do caminhão de lixo para a cada dez, para que seus pingentes pulem para o asfalto, recolham os sacos de lixo dispostos nas frentes das casas, reembarquem, e pulem outra vez do estribo, cinco ou dez metros à frente, para coletar mais sacos de lixo. É um acelerar e frear contínuo. Acho que o profissional que conduz esse tipo de veículo é o único que utiliza igualmente, com a mesma frequência, os três pedais do caminhão. E sempre pelas mesmas ruazinhas estreitas, esburacadas e enlameadas da periferia.

Dirigir não e ruim! O ruim é que tem outros veículos fazendo a mesma coisa que você! Pior ainda seria se você tivesse de aguentar os outros veículos se estivesse ao volante de um ônibus ou de um caminhão de lixo!

Marco Antonio Zanfra

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