Vai fazer trinta e um anos que abandonei a bebida e só agora descobri que eu poderia ter ficado bêbado sem ingerir uma gota de álcool. E sem, claro, gastar a fortuna que gastei, em quase vinte anos de atividade, para me embriagar! Bastaria que eu tivesse um distúrbio metabólico chamado síndrome de autofermentação e meus intestinos produziriam por conta própria o etanol que eu buscava diariamente nas garrafas!
Claro que não seria a mesma coisa! Sentir-se bêbado sem compartilhar o banquinho do bar com os amigos, sem aquele papo furado e inconsequente de que você nem vai se lembrar no dia seguinte, é abrir mão de um prazer inarredável! O passo a passo da bebedeira é algo que não pode ser esquecido. A primeira fala engrolada deve respeitar certos parâmetros que só se reproduzem após determinado número de doses!
Sofrer de tal síndrome pode gerar situações inusitadas a bebedores, como eu fui:
– Vamos sair pra tomar alguma coisa?
– Só se for um Engov…
A síndrome não é comum, todavia. Não há uma estimativa confiável de quantas pessoas em todo o mundo são afetadas por ela. Na literatura médica, a condição é relatada como ‘muito rara’. As culpadas por isso são as fofas Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, bactérias que vivem no microbioma intestinal, fermentam carboidratos e os transformam em etanol.
“Elas podem elevar o nível de álcool no sangue a tal ponto de as pessoas afetadas não estarem mais aptas a dirigir”, disse o pesquisador Bernd Schnabl, da Universidade da Califórnia. O pior de tudo, nos portadores dessa síndrome, é a falta de credibilidade: quem vai acreditar que não bebeu uma pessoa que apresenta alto teor alcoólico simplesmente por ter um alambique interno?
Pior ainda: não existe um tratamento específico para autofermentação. Os pesquisadores estão conseguindo pequenos resultados a partir do transplante de fezes. Ou seja, tem gente que faz merda quando bebe, mas a merda – no sentido literal do produto – pode salvar vidas!
Em tempo: Embora eu ache que esteja óbvio, creio que vale informar que a inspiração para o título deste texto veio da, para mim, obra-prima de Rubem Fonseca, ‘Bufo & Spallanzani’.




