Dos frutos desse ventre

Os leitores que me perdoem a aparente crueza da pergunta que fiz à IA, mas só quem recebe na bunda uma injeção de benzetacil sabe o quanto dói a agulhada! A pergunta pode parecer meio egóica, meio mesquinha, mas é fruto – sem trocadilho – de anos e anos sendo submetido ao árduo trabalho de limpar a sujeira deixada nos fundos de casa por uma prolífica caramboleira. Embora aconteça apenas uma vez por ano, a lida dura mais de um mês. Algo impensável a alguém que, daqui a pouquinho, estará chegando aos setenta anos.

Pois bem: a pergunta foi ‘pode uma árvore frutífera atingir a menopausa?’

Entendam os leitores que não tenho nada contra a árvore em si, contra sua prodigiosa sombra, mas apenas contra sua incansável capacidade de procriar, de colocar as incontáveis frutas de seu ventre aos pés de seu tronco, à espera de que um pobrezinho – no caso, eu – as recolha e lhes dê um destino digno junto ao ecoponto aqui perto.

Ou, como na fase atual de sua atividade reprodutiva, obrigue o coitadinho a varrer três ou quatro vezes ao dia as centenas de flores que ela despeja sobre as tábuas do deque, tomando ainda o cuidado de não confrontar as abelhas, que fazem escala de 6×1 no trabalho de polinização.

A resposta da IA chegou a me surpreender:

Sim, no sentido metafórico e fisiológico de interrupção da capacidade reprodutiva (frutificação), uma árvore frutífera pode passar por um processo semelhante à menopausa ao envelhecer. Embora as plantas não possuam o mesmo sistema hormonal dos mamíferos, elas envelhecem e passam por mudanças drásticas na produção de frutos.

À medida que as árvores frutíferas envelhecem (geralmente após 25-30 anos, dependendo da espécie), a produção de frutos torna-se irregular e diminui significativamente. Embora a árvore possa sobreviver por muitos anos apenas com folhas (fase vegetativa), ela pode parar de produzir frutos.

Confesso ter sentido uma certa satisfação sádica em relação à possibilidade de chegar ao fim a atividade reprodutiva daquela que despeja em mim toda sua prole. Quanto tempo ainda eu teria de desenferrujar minhas articulações para coletar sua produção caudalosa? A resposta da IA fala em 25 a 30 anos, dependendo da espécie, e nossa caramboleira já tem mais de 25 anos. Portanto…… portanto, nada! Essa ressalva ‘dependendo da espécie’ me deixou com um pé atrás, e eu fui atrás de informações sobre o ciclo vital da árvore, para saber quando ela entraria na menopausa. A resposta não foi nada animadora:

A caramboleira (Averrhoa carambola) é uma árvore frutífera perene, originária do Sudeste Asiático, que se destaca por sua longa vida produtiva e crescimento relativamente rápido em condições tropicais. O seu ciclo vital envolve um rápido início de produção, especialmente quando enxertada. Em climas tropicais, a caramboleira pode florescer e dar frutos quase o ano todo, mas no Brasil as colheitas são mais intensas no final do outono/início do inverno e final da primavera/início do verão.

Um pé de carambola bem cuidado pode viver e produzir por 40 a 70 anos, ou mais.

De quarenta a setenta anos! Eu vou embora e ela vai continuar jogando suas frutas no meu quintal! Mesmo que ela limite sua atividade ao mínimo, eu terei chegado aos oitenta e cinco anos, e certamente não terei mais condições físicas de cuidar da sujeira! Isso se eu chegar até lá! Ou seja…

Confesso que cheguei a pesquisar sobre a possibilidade de uma laqueadura na caramboleira, e vi que até seria possível esterilizar a árvore com produtos contendo etefon – que, aplicado na floração, impede que a flor seja polinizada e vire fruto – mas resolvi parar, antes que a ‘aparente crueza’ que eu tinha citado no primeiro parágrafo perdesse seu sentido e eu me transformasse num aprendiz de Josef Mengele.

Marco Antonio Zanfra

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