Dos anos 70 aos 70 anos

Tive essa ideia de título há uns três ou quatro anos, mais ou menos. Se me permitem a imodéstia, achei uma bela sacada para anunciar meu aniversário. Guardei-a com carinho até que completasse a idade anunciada. E, agora que cheguei a ela – neste domingo, 12 de abril – fico pensando que falta alguma coisa para completar o título. Competência, por exemplo…

Afinal, o que dá para escrever sobre isso? Que texto brilhante devo produzir a partir de meu teclado para fazer jus ao que considerei um título bem sacado?

Para começar essa minha falta de perspectivas, dou de cara com uma obviedade: quem completa setenta anos em 2026, deve necessariamente ter passado pelos anos 70. Mas não nasceu nos anos 70, claro. Nasceu pelo menos quatorze anos antes, como eu. Nesse caso, os anos 70 representam apenas uma espécie de rito de passagem. Ou – se me permitem novamente a imodéstia – apenas um jogo de palavras para acompanhar um título bem sacado.

Descobri uma particularidade interessante, porém: o ano de 1970 tem exatamente o mesmo calendário de 2026. Fiz quatorze anos num domingo, faço setenta anos num domingo. Segundo a IA do Google, a coincidência de o dia 12 de abril cair num domingo acontece quatorze ou quinze vezes por século, o que não deixa de ser mais uma descoberta interessante para a mente inquieta de um septuagenário debutante!

Não cheguei a calcular em quantas dessas quatorze ou quinze vezes por século já apaguei as velinhas. Devem ter sido muitas!

Mas os anos 70 foram mais do que um rito de passagem: foram os anos em que entrei de cara na adolescência e decidi minha vida adulta. Ou, pelo menos, decidi minha vida profissional. Foi nessa fase que escolhi ser jornalista, e foi também nessa fase que comecei minha carreira na ‘Folha de S. Paulo’. Em contrapartida, foi também nessa fase que comecei a beber.

Claro que nos 70 vivíamos uma época de exceção, com prisões, desaparecimentos, tortura… Mas, ora, para compensar tivemos o Brasil tricampeão mundial de futebol! Jairzinho, Tostão, Pelé, Rivelino… O orgulho daqueles “90 milhões em ação”, como na música ufanista de Miguel Gustavo, parecia compensar Médici e os demais percalços da ditadura militar!

Aliás, lembrando Miguel Gustavo e a música do tri, eis outra particularidade interessante: os 90 milhões em ação eram, na verdade, 93.139.037, segundo o IBGE. Hoje, cinquenta e seis anos depois, somos 213.421.037 (dados de julho do ano passado). A população brasileira cresceu 129% desde que entrei na adolescência.

Eu cresci mais, muito mais! Deixei o acréscimo populacional comendo poeira e rompi a barreira dos 400% em termos de anos vividos! Bela merda, como diria meu falecido nonno!

Os anos 70 foram importantes, sim, talvez o pontapé inicial para o meu futuro. Mas outras décadas também seriam indispensáveis para mim, cumpririam seu papel no delineamento de minha vida. Nos 80, por exemplo, veio o casamento e o nascimento das filhas. Nos 90, parei de fumar, destrocei o casamento por causa da bebida, parei de beber e comecei a reconstruir a família que havia destroçado três anos antes. Passei dois anos trabalhando no Japão. Na volta, a família em reconstrução deixou São Paulo para morar em Florianópolis.

Em outubro, faz vinte e nove anos que estamos aqui. E a reconstrução vai bem, obrigado.

Reconheço que houve uma parte do século 20 – mais exatamente dezenove anos – em que deixei de cumprir, por causa do álcool, o que se esperava de mim, tanto pessoal como profissionalmente. Mas o século 21 tem representado uma nova e significativa fase para mim e a família. Uma reconstrução, como eu disse. Um processo que não para nunca: a esposa se formou e se pós-graduou, as filhas se formaram e se pós-graduaram. E se casaram. E me deram meus dois netos.

Mais: enfrentei – e continuo enfrentando – um câncer teimoso, publiquei seis livros e estou pronto para mais alguns. E isso, esse desenrolar de engenharia vital, ainda continua. Só acaba quando termina, como dizia Chacrinha.

Nessa mudança de ‘hábitos de consumo’, passei de alcoólatra a chocólatra. Tornei-me um Cacau Lover, fã dos produtos da Cacau Show, embora não rejeite outras marcas de chocolate. Por falar nisso, como meu aniversário acontece exatamente uma semana depois da Páscoa, receber ovos de chocolate de presente não há de me causar nenhum constrangimento!

E, já que citei ser um Cacau Lover, há no site um indicador interessante sobre os dias vividos pelos amantes do chocolate. Segundo esse tópico, neste domingo, 12 de abril de 2026, terei eu vivido exatamente 25.567 dias. É um montão, né?

Não faço ideia de em quantos mais eu hei de ver o sol nascer…

Marco Antonio Zanfra

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