Diálogos íntimos

– O senhor está falando sozinho!

A mocinha atrás de mim, cuja presença eu nem tinha notado, me interpelou num tom meio de alerta, mas nem por isso menos jocoso, e eu tive vontade de responder: como você completou o circuito emissor/receptor, ouviu o que eu disse e até deu retorno, eu não estava necessariamente falando sozinho. Minha ouvinte – você, no caso – ainda que involuntária, desmontou sua própria afirmação.

Mas preferi responder: não, eu não estava falando sozinho, eu estava falando comigo mesmo. Em certas ocasiões, modéstia à parte, acho melhor selecionar quem merece ouvir meus pensamentos, e o fato de você ter escutado minha conversa íntima comigo mesmo não passou de um acidente de percurso. Desculpe, a desatenção foi minha, por não ter percebido sua presença.

Costumo fazer isso, falar comigo mesmo em voz alta. Acho que alguns pensamentos são tão bons, tão originais, que não merecem dormir num cantinho de cerebelo. Devem ser expostos e assimilados. Devem sair pela boca e entrar pelos ouvidos, de modo a ficarem gravados duas vezes, na origem e na reprodução. Sei que esses pensamentos, se divulgados numa multidão ou numa rede social, talvez até merecessem uma saraivada de likes. Mas prefiro guardá-los para mim. Duas vezes.

É claro que nem sempre concordo com o que eu digo. Pessoas inteligentes, preferencialmente sensatas, têm um espírito crítico às vezes maior do que si próprio. E isso explica as desavenças entre mim e eu. Alguma gracinha dirigida entredentes a uma jovenzinha ajeitada, ou a uma senhora desajeitada, algum preconceito tolo, alguma observação xenófoba, alguma expressão raivosa com os – sempre eles – seguidores da familícia, alguma aleivosia de caráter iconoclasta… Às vezes, me acho tão intolerante que não sei como consigo conversar comigo.

Mas no mais das vezes meus pensamentos são dignos de aplausos – e eu só não bato palmas para mim no meio da rua porque seria muita indiscrição. Mas, um sorriso satisfeito, e às VEZES até com efeito sonoro, eu não dispenso. Eu devia andar com um pequeno gravador de bolso e registrar cada um desses pensamentos brilhantes que divido com meus ouvidos. Mais tarde, quem sabe, fazer uma seleção dos melhores, mais profundos, mais radiantes, e publicá-los em livro. Já não existe ‘O livro dos pensamentos de Mao’? Por que não ‘Conversas íntimas comigo mesmo’?

À mocinha que me interpelou na rua, uma dica: quando eu estiver falando sozinho, sem saber que estava falando sozinho, procure não interromper. Porque eu não sei, a essa altura, como estará minha cabeça, e certamente não sei como poderia reagir a uma intromissão.

Marco Antonio Zanfra

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