Desigualdades

Li que o Faustão vendeu uma cobertura duplex no Jardim Europa por R$ 120 milhões. Deve valer: com 1,4 mil metros quadrados de área, quatro suítes, salão de festas, academia e vinte vagas de garagem, além da localização, o imóvel cumpre os requisitos para tal avaliação.

Mas não era aí que eu queria chegar! A questão crucial é o potencial aquisitivo da população, escandalosamente desproporcional: quem tem R$ 120 milhões para comprar uma casa?

Não alguém certamente que dependa de programas como Minha Casa Minha Vida, cujo teto de valor do imóvel, mesmo na faixa de maior renda, é de R$ 500 mil – ou seja, teríamos de juntar 240 cotistas para financiar a cobertura!

Também não seria uma simples assistente social, cujo piso salarial é de R$ 5 mil. Essa profissional, quando muito, teria de juntar outras seis colegas para, com o salário bruto de todas, pagar – ou quase pagar – o condomínio do prédio, que é de R$ 36 mil!

Não serão pessoas como nós, pobres assalariados, que chegaram a duras penas à aposentadoria com um vencimento pouco mais do que aviltante. Não serão pessoas que passaram vinte ou trinta anos botando seus troquinhos na poupança e comemorando hoje ter guardado duzentos mil, para dar entrada numa casinha modesta e deixar de herança para os filhos.

Mas tem compradores, sim! A revista Forbes do ano passado informou que o trigésimo colocado entre os bilionários brasileiros, o menos bilionário dos bilionários, poderia comprar e pagar à vista uma centena de coberturas iguais à do Faustão! Já o primeiro colocado da seleta lista teria patrimônio para bancar 1.891 imóveis do mesmo valor.

Por razões óbvias, a Forbes não lista quantos brasileiros com renda familiar de até R$ 8,6 mil por mês, faixa 3 do Minha Casa Minha Vida, estariam na fila para comprar sua casinha de até R$ 350 mil. Que valem 1/342 da propriedade vendida pelo Fausto Silva.

Falar da desigualdade no Brasil soa como ladainha. Todos sabem que os dez por cento mais ricos detêm setenta por cento das riquezas e que a fortuna de alguns poucos – desses que podem comprar sem pedir desconto a cobertura no Jardim Europa – supera o patrimônio somado de metade da população mais pobre. São palavras ao vento, que não alteram nossa situação.

A boa notícia é que em 2024 a renda dos quarenta por cento mais pobres, impulsionada por programas sociais e melhoria no mercado de trabalho, cresceu ligeiramente mais depressa do que a dos dez por cento mais ricos. Isso pode significar que, em algumas centenas de anos, o país será menos desigual… Sejamos otimistas!


Marco Antonio Zanfra

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