Confiança, às vezes, é tudo!

Sentado no “Toninho do Bacalhau”, aqui em Santos (SP), para uma cervejinha de final de tarde com meu filho, conversamos sobre tudo. À certa altura, comentávamos sobre os benefícios do canabidiol no controle de diversos transtornos e doenças. Lembrei que o médico forneceu uma receita a uma amiga nossa para o tratamento de seu filho com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Ao me contar, ela se disse preocupada: “Ainda não me acostumei com a ideia de estar dando droga para o meu filho”. Já um eletricista, amigo meu, que sofre com dores fortes na coluna e faz uso do medicamento, me confidenciou: “Acho que vou pedir para o médico baixar a dosagem. Estou ficando muito mole…”

Papo vai, papo vem, notei que uma senhora a caminho dos seus 80 anos, na mesa do lado, prestava atenção na conversa. Educadamente, ela pede licença, e indaga mais sobre o canabidiol. Muito lúcida, conta que tem um princípio de Parkinson, mas que seu médico não a deixa usar a substância. Prometemos que iríamos pesquisar mais sobre o assunto, e a aconselhamos a procurar um outro especialista.   

Dona Aldeide, de Belo Horizonte, diz que marcou um encontro em Santos com a filha, o genro e as netas, residentes em São Paulo. Dos quatro restaurantes que tinha na cidade, três foram dizimados pela pandemia. Agora, ela cuida apenas de um. A conversa envereda pelas delícias da comida mineira (eleita recentemente por uma revista internacional como a melhor do Brasil) e os famosos botecos de lá.

Já estive em BH algumas vezes, a última em 2019, junto com minha esposa, quando participamos da “Volta da Pampulha”, famosa corrida de rua da cidade. Meu filho nunca esteve lá. Ele diz que gostaria de visitar a cidade, com a namorada, conhecer os bares da Savassi e o Mercado Municipal. E visitar o Inhotim, o maior museu a céu aberto do País.  

Quando ele revelou que pretendia viajar à BH, a senhora diz: “Quando forem pra lá, fiquem lá em casa. Moro sozinha em um apartamento grande, no Floresta.” Só lembrando que Floresta é um dos melhores bairros da cidade. Ela não só nos convidou, como sacou de uma agenda, rasgou uma folha e anotou o endereço e o telefone.

Levamos um susto, afinal, eram pouco mais de 10 minutos de conversa. Como ela podia confiar em dois caras, que ela acabara de conhecer, em um boteco? Agradecemos, evidentemente, e passamos a ponderar sobre a questão da confiança no mundo de hoje, principalmente nos grandes centros urbanos.

O convite carrega uma dose excessiva de generosidade ou pureza, que não se encontra mais atualmente. Vê-se que a hospitalidade dela é instintiva, genuína. Caso não o fosse, o genro e a filha poderiam intervir. Ainda mais que com o passar dos anos, pessoas idosas, quando não se tornam desconfiadas demais, perdem totalmente a malícia.        

A pergunta que fica é: quando foi que deixamos de ser Aldeides? O que nos levou a desconfiar de tudo ao nosso redor? O mundo de hoje não está para brincadeiras. São bandidos, tarados, maníacos, golpes atrás de golpes. Lá atrás, nossas mães recomendavam “não falem com estranhos”, mas a gente falava assim mesmo.

Em certa medida, era um tempo em que quase todo mundo se conhecia (ou, pelo menos, se acreditava nisso). Hoje, não conhecemos mais ninguém. Desconfiamos do motoboy do IFood, do carteiro, do agente da luz, do gás, da água. Errados não estamos, mas dá saudades daquele mundo, onde a confiança prevalecia.

Nossa primeira casa própria, logo que mudamos do interior para São Paulo, era pequena, meu pai ganhava pouco, mas minha mãe dava um jeito de aumentar nossa renda. Alugava um dos quartos para rapazes que conhecia ou mesmo desconhecidos, indicados por alguém. Eu e minha irmã éramos menores, mas nunca tivemos nenhum problema.

E atualmente? Quem teria coragem de colocar um estranho dentro de casa. Lembro dos bons filmes de faroeste de faroeste de antigamente, em que o mocinho deitava, punha a arma sobre a barriga, cobria o rosto com o chapéu e mantinha um olho dormente e o outro desperto. Era o famoso “um olho no peixe, outro no gato”.

Nessa direção, também sou mais adepto do famoso “confiar, desconfiando”, como ensinavam nossos avós. Apesar de o noticiário nos mostrar diariamente casos e casos, em que a confiança esgarçou e se rompeu, ela continua sendo fundamental em nossas relações. Como bem disse Charles Brown Jr.: “Na vida, tudo se baseia na confiança, tamo aí na luta sem perder a esperança.”      

Manoel Dorneles

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