Só reparei na senhorinha quando a vi saindo do banheiro, e ela parecia estar encontrando dificuldades para abrir a pesada porta. Era minúscula, não devia chegar ao metro e meio. Miúda, magra, ela vestia um casaco encorpado que parecia pesar-lhe sobre os ombros. Tinha os cabelos grisalhos prensados num coque à altura da nuca, envolto por uma fita vermelha cor de sangue. Usava sapatilhas da mesma cor, e isso era a única coisa que combinava no conjunto.
Passou por mim arrastando os pés, em direção à saída da sala de espera da Radioterapia, sem olhar para lado nenhum. Parecia cansada, mas não aparentava um ar doente. Poderia ser acompanhante de alguém, mas não ostentava a etiqueta adesiva que os acompanhantes têm de usar. Poderia ter entrado ali apenas para usar o banheiro. Poderia estar no pátio dos fundos, aguardando o transporte que as prefeituras do interior garantem aos pacientes do Cepon. Poderia ser uma funcionária terceirizada que acabara seu turno de trabalho. Vai saber…
E aí tive curiosidade de saber da vida dela. Era uma figura que, pensei, valeria uma crônica. Mas eu não poderia, simplesmente, parar a mulher na porta e fazer-lhe uma série de perguntas para enriquecer o texto. E então me lembrei de uma professora de olhos esbugalhados da segunda série ginasial, dona Doracy, que nos instigava a ‘sair da casinha’ – embora essa expressão não existisse na época: fazia exercícios de retórica, forçando-nos a criar e expor oralmente uma história qualquer; instigava-nos a inventar sobre a vida de alguém, apenas observando seu comportamento…
Foi como lembrança dessa professora que eu ‘inventei’ a vida da senhorinha.
Mesmo porque, enquanto esperava ser atendido, eu não tinha nada melhor a fazer, mesmo!
***
O nome dela era Adelaide e ela tivera cinco filhas, todas do mesmo pai, embora ele nunca tivesse se assumido como marido, ou chefe de família. Era alcoólatra e passava longos períodos longe de casa, depois de quebrar tudo e espancar a mulher. Voltava, faziam as pazes, faziam mais uma filha. Foram cinco reconciliações, como indica a matemática. Mas fazia anos que ele não voltava. Talvez até estivesse morto.
Provavelmente para fazer um contraponto ao fato de ter sido batizada com um nome que começava com a primeira letra do alfabeto, o nome de todas as suas meninas começava com Z. Zilda, a mais velha, em tratamento contra um câncer na laringe, era quem a senhorinha acompanhava no Cepon. Seu ar cansado e desesperançado era consequência de já haver perdido uma de suas filhas: Zenaide, a penúltima, morrera de meningite antes ainda de entrar na adolescência.
A segunda integrante da prole, Zélia, conseguira casar-se e mudara-se para o Paraná. As outras três moravam com ela numa casa pequena de dois quartos no bairro Monte Cristo, periferia da cidade. Adelaide dividia seu quarto com uma máquina de costura daquelas antigas, de pedal, marca Pfaff, embora fazia algum tempo que não abria a tampa para costurar. Cortes de tecido acumulavam-se sobre a estrutura, para felicidade de Terto, um gato rajado gordo, que abandonara a boemia após perder parte de uma orelha e dividia suas muitas horas diárias de sono entre a máquina e as camas das moças.
Zelinda e a caçula Zoraia dividiam o outro quarto com Zilda, que dormia numa cama de armar no meio das camas das irmãs. Adelaide andava batendo a cabeça para arrumar um jeito de levar a filha doente para dormir em seu quarto, mas o espaço era exíguo demais para uma solução que oferecesse mobilidade interna. Zoraia cursava o ensino médio; Zelinda trabalhava como manicure e ajudava no sustento da casa, garantido graças a um benefício de prestação continuada da Previdência. Benvindo, o pai de todas, nunca lhes deixou nada…
***
Reencontrei a senhorinha três dias depois. A mesma fita vermelha, o mesmo casaco, a mesma sapatilha. Mas o ar era diferente. Mais do que cansado, parecia abatido e com marcas de sofrimento. Os cabelos estavam meio amarfanhados, presos no coque de forma displicente. Ela caminhava arrastando os pés para dentro da sala de espera amparada por uma mulher pouca coisa mais jovem do que ela. Era ela, afinal, a doente, e não sua filha imaginária Zilda.
Suas outras filhas imaginárias, além do gato imaginário Terto, não estariam em casa esperando por elas.
E o nome dela era Elizeth.




