Quem já “farmou aura” hoje?

Foi durante um curso de radiestesia, há muitos anos, que descobri a existência da aura, uma espécie de camada energética a nos envolver por inteiro. Fiquei sabendo também que aura tem cores variadas, a depender de nosso estado de espírito momentâneo. Minha preferência era pela violeta, que representa a espiritualidade, um estado de consciência superior e conexão com o divino.

Contentei-me, no entanto, com a de tom alaranjado, “observada” pelo nosso orientador na ocasião, o que não é de todo ruim. Tem a ver com entusiasmo, criatividade, sexualidade, alegria de viver. Características, aliás, bem condizentes com o meu momento então. Recém-diplomado, início de carreira, recém-casado, não tinha de que reclamar.

Decorridos quase 50 anos, eis que bate à nossa porta uma geração de “farmadores de aura”, representada pelo pessoal nascido da virada do século até esta data. A aura lá do meu curso não tem nenhuma relação com a “aura farmada” dos dias atuais, mas cabe aqui algumas considerações.

Em certa medida, a partir do princípio de que, em alguns momentos de nossas vidas, vencemos, superamos obstáculos, arrasamos, todos nós “farmamos aura”. A começar pelo dia em que fomos gerados. Aquele espermatozoide sacudido, esperto, que cruzou a linha de chegada à frente de milhões de seus pares, evidentemente, “farmou aura”.

Se tivesse uma foto do pódio, ele estaria lá em cima todo faceiro e sorridente, ao lado de seus concorrentes “mogados” (outra gíria deles, que significa superados), enquanto exibe seu valioso troféu. Farmamos aura, quando demos os primeiros passos, pronunciamos as primeiras palavras, aprendemos a andar de bicicleta.

Mais tarde, farmamos aura, ao completar o primário, o secundário, ao ingressarmos na faculdade. Vêm a formatura, o primeiro emprego, o primeiro salário, o casamento. Farmamos aura, quando contemplamos nosso primeiro filho, ainda no berço da maternidade, e não economizamos nas lágrimas.

Continuamos a farmar aura vida a fora, numa pós-graduação, mestrado, doutorado; quando plantamos uma árvore ou escrevemos nosso primeiro livro. Avós também farmam aura, quando contemplam o sorriso do primeiro neto. Assim é o ciclo da vida.  

Só que essa nossa intromissão no mundo das gírias e expressões das novas gerações não é muito bem aceita pelos seus representantes. Segundo alguns deles, em entrevista ao Fantástico, ao descobrirem que nós, de gerações, já quase do outro lado da vida, nos apropriamos desse linguajar, eles o abandonam e criam outras maneiras de se comunicarem.

“Na moral”, éramos mais benevolentes e desprendidos em nossa juventude, tempos das “festas de arromba”, em que todo mundo era “papo firme” ou “uma brasa, mora”. Do que criamos lá atrás, carregamos um pouco, o restante largamos despreocupadamente pelo caminho.

Nessa balança, ficamos entre o FOMO e o JOMO, expressões também usadas pelo pessoalzinho de hoje. FOMO (sigla de Fear of Missing Out, em inglês) é o medo de ficar de fora de alguma coisa, enquanto JOMO (Joy of Missing Out) é o oposto, algo como prazer de não ser incluído, de ficar de fora.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, só peço que o editor publique logo este texto, antes que a turminha descubra que estou me apossando do falar deles e mude tudo outra vez. Fui.

Manoel Dorneles    

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