Adesivos

Tinha um amigo que se julgava perseguido pelo policiamento de trânsito: cada vez que era parado numa blitz, ou numa simples fiscalização de rotina, os policiais faziam questão de submetê-lo ao bafômetro. Não era uma exigência eventual. Era sempre. Perguntei-lhe uma vez se essa ‘perseguição’ não poderia estar relacionada ao plástico adesivo que ele havia colado no vidro traseiro do carro e ele riu. Como pode? É um simples adesivo!

Só que esse ‘simples adesivo’ era um contraponto de mau gosto àquele plástico colocado eventualmente nos carros que transportavam recém-nascidos, com um desenho fofo e os singelos dizeres Bebê a bordo! No caso desse meu amigo, os ‘singelos dizeres’, acompanhados de uma caricatura grotesca, eram a expressão Bebum a Bordo!

Pela lógica, por que os policiais não exigiriam do motorista de um carro que admite conduzir um bêbado que esse motorista, talvez ele próprio o tal do bebum a bordo, passasse pelo teste do etilômetro? Para mim, um adesivo como o do carro dele traz o próprio significado da expressão ‘produzir provas contra si mesmo’. Ou pelo menos indicar onde conseguir essas provas.

Justiça seja feita, meu amigo não era o único a colar dizeres idiotas nos vidros dos carros. Hoje não é tanto, mas no final dos anos 70 e início dos 80 os automóveis viviam empapelados com piadinhas estúpidas, indicativos do curso que os condutores faziam na faculdade – ou o contraponto Não estudo em faculdade nenhuma – fé religiosa do dono do carro e até mensagens filosóficas. Confesso envergonhado que cheguei a colar um Brahmalogia no vidro lateral de um Chevette, mesmo tendo na época a opção de um Jornalismo Cásper Líbero, mas minha imbecilidade não passou de uma semana.

Mais recentemente, a política tomou conta dos vidros, e os dizeres, sejam quais fossem, foram substituídos por partidos, nomes e fotos de candidatos. Virou uma mesmice em sua inexpressividade. As exceções são aqueles crentes que atribuem a propriedade de um velho Fiat enferrujado a um Presente de Deus! Ou aqueles que usam não os vidros, mas a própria lataria do carro para expor sua vida particular – quem nunca viu aquela fileira de bonequinhos representando pai, mãe, filhos, cachorro e papagaio?

Para mim, usar a lataria do carro como ‘outdoor’ é uma ameaça de dano à pintura. Eu não compraria um carro que tivesse adesivos colados na lata, principalmente, por razões de crença (ou falta de), aqueles que simulam um rosário com o formato de uma santinha. Estética e ateísmo. 

Marco Antonio Zanfra

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