Nas águas do Velho Chico

– Quantos metros daqui até lá embaixo?

– Uns trinta! – o homem respondeu sem virar a cabeça, desinteressado.

Cláudio olhou para mim com olhos de criança traquinas, com um meio sorriso no rosto. Voltou a debruçar-se na balaustrada da ponte e olhou o São Francisco lá embaixo, passando mansamente como um destino perene. Alguns garotos magricelas, de nove ou dez anos, salpicavam a água turva de vez em quando, mergulhando do lado baiano da ponte.

Você pularia? Senti essa pergunta no olhar de meu companheiro de viagem, mas mudei de assunto, apontando para a bela catedral de Petrolina, na margem oposta do rio, e elogiando suas linhas góticas. Não adiantou. Cláudio continuava com seu olhar de criança traquinas.

– Eu vou pular! – ele decretou, enquanto começava a descalçar as sandálias franciscanas e a desabotoar a bermuda.

– Não posso te impedir! – admiti. – Se você sobreviver, te esperarei no hotel em Juazeiro…

 ***

Fui obrigado a recorrer a uns colegas de trabalho de Cláudio em Recife. Funcionários de uma filial da empresa em que ele trabalhava em São Paulo. Nós dois éramos turistas caroneiros, apenas com sede de aventuras e uma mochila nas costas… como eu poderia resolver sozinho o translado de um caixão até nossa cidade de origem? Para começo de conversa, nem o esquife eu teria como comprar! Não comuniquei a morte dele à família, mais por não saber o que dizer do que por medo do que pudesse acontecer a eles.

Os preços proibitivos para o transporte interestadual de um corpo fizeram com que os colegas recifenses pensassem num ‘jeitinho’: colocar o féretro no porta-bagagens de um ônibus e fazer o trajeto sem que os demais passageiros soubessem do falecido companheiro de viagem. Só o agente alfandegário da empresa de ônibus e os dois motoristas – além de mim, claro – saberíamos do funéreo viajante. Sairíamos às 10 horas da manhã de sexta-feira e chegaríamos a São Paulo, na então rodoviária do Glicério, ao meio-dia de domingo. Tudo pensado para terminar tranquilamente.

Só que o motorista número dois teve quase um acesso de pânico, quando o ônibus já estava em Vitória da Conquista, na Bahia:

– Tem um posto da PRF a três quilômetros daqui, e eles costumam parar os ônibus e dar uma boa olhada nos passageiros e na carga – ele se dirigiu a mim, falando baixinho, depois de estacionar o veículo num posto de combustível, parada de caminhoneiros, mas não prevista para o coletivo. – Eles com certeza vão descobrir o defunto aí embaixo!

 Tinha uma garota sentada ao meu lado. O nome dela era Quitéria, e isso foi a única coisa que consegui que ela dissesse desde o início da viagem. Mas bastou ela ouvir o que o motorista me dissera para virar uma cacatua desvairada.  Até então, ninguém sabia do passageiro que passara desta para melhor! Até então…

Resumindo, Cláudio e eu fomos praticamente carregados para fora do ônibus. Quer dizer, Cláudio foi textualmente carregado para fora; eu saí aos borbotões. Abandonaram-nos num anexo em obras do posto de gasolina, garantindo que, pelo menos, nós não estivéssemos desprotegidos de uma possível chuva. Estava começando a anoitecer, e eu tinha a árdua missão de condoer um caminhoneiro a prosseguir viagem, levando em meio a sua carga um peso literalmente morto.

 ***

Minha preocupação: quanto tempo demora para um cadáver começar a cheirar mal? Meu amigo não fora embalsamado, o corpo não passara por qualquer preparação, saíra do necrotério diretamente para o caixão e, dali, para o bagageiro do ônibus. Estávamos chegando ao quarto ou quinto dia, não tinha muita certeza, e não conhecia as etapas da putrefação. O cheiro poderia nos denunciar numa eventual parada para almoçar ou abastecer?

Tive essa preocupação na boleia do caminhão de um tal de Pepe, que era mineiro, mas falava com sotaque espanhol, talvez influenciado pelo apelido. Tínhamos acomodado o caixão por cima de sacas de soja, coberto apenas pela lona. O destino do frete de Pepe era São José dos Campos, distância que ele percorreria em um dia, e então eu teria ainda noventa quilômetros para carregar minha encomenda. De que forma eu faria isso? Pagaria uma agência funerária? Com que dinheiro?

Resolvi fazer uma coisa que eu devia ter feito desde o início: liguei para a família dele, informei onde estaríamos e pedi socorro. Resolvi também fazer o translado às claras: pedi para Pepe nos deixar num abrigo de ônibus a um quilômetro do posto da PRF em São José dos Campos – não queria que respingassem nele as eventuais implicações criminais do que eu tinha feito até então – pedi que um casal de idosos que mantinha uma barraca de frutas nas imediações tomasse conta do caixão e fui até o posto da polícia me entregar.

 ***

Nota: A primeira parte deste texto, passado na ponte Presidente Dutra, divisa entre Bahia e Pernambuco, tem boa parte de verdade. Mas Cláudio não pulou no Rio São Francisco. E então o resto eu inventei.

Marco Antonio Zanfra

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