Todo mundo conhece, teve contato ou já ouviu falar de um campeão em alguma modalidade esportiva ou mesmo um destaque em qualquer área da atividade humana. Mas acredito que quase ninguém foi apresentado a Ramiro, o “maior chupador de jabuticaba no pé” de que se tem notícia. Conheci Ramiro, ali pelos meus 12, 13 anos, ainda no colégio interno. A gente o chamava de “Coroné Ramiro”, apelido que detestava.
Ramiro, sobre quem até escrevi um livro infantil (ainda não publicado), nasceu na mineira Sabará, Grande Beagá, cidade importante durante o ciclo do ouro, mas conhecida também como a “Capital da Jabuticaba”. Até dá nome a uma espécie dessa fruta. A epopeia de Ramiro começou, a partir dos 9, 10 anos, quando ele ganhou várias competições ao redor de uma jabuticabeira.
“Isso aqui é pr’oceis vê que num tô mentindo”, dizia, enquanto exibia algumas fotos dele atracado ao tronco da árvore, com a boca cheia de frutas. Tinha lá seus contratempos, é claro. Conta que, mais de uma vez, após essas disputas, teve que ser levado ao hospital da cidade para uma lavagem interna de urgência. É que, não sem razão, os mais antigos costumavam dizer que muita jabuticaba “prende o intestino”.
Lembrei do “Coroné Ramiro” hoje, quando voltava da rua aqui em Santos (SP), onde moro atualmente. Um pedaço de pau em uma mão, na outra, um saco com abacates, goiabas cajás-manga, limões. Tudo fresquinho, colhidos no pé agorinha mesmo. Sem falar nos guabijus, pitangas, seriguelas e gabirobas, que comi pelo caminho.
Aos olhos da nova geração, um velhote setentão a colher frutas no pé só pode ser doido. Sou assim desde pequeno. Quantas vezes não pulei muros e cercas atrás de uma boa goiaba madura, uvaias, mangas. Já corri de cachorros, mas nunca levei um tiro de sal na bunda, como ocorreu com alguns amigos meus. Hoje em dia, minha mulher fica doida. “Onde já se viu isso, deixe as frutas para os moradores de rua ou para os passarinhos”, me diz. Nem dou trela.
Aqui em Santos, o que não falta são pés de frutas nas ruas e praças, mais que o suficiente para humanos e pássaros. Só que a maioria das pessoas nem liga. Eu ligo muito. Diferentemente de mim, que vim da roça e fui criado ao ar livre, adultos e crianças de hoje em dia, moradores em condomínios, não têm esse contato com a natureza e nem fazem a menor ideia de que é possível, sim, colher e comer as frutinhas. Claro, vale sempre o velho dito, “se passarinho não come, evite”
Para vocês terem ideia, minha casa fica num condomínio, em uma importante avenida, aqui na Ponta da Praia. O amplo canteiro central tem espaço para uma ciclovia e um imenso pomar horizontal. Vou citar só algumas das árvores frutíferas: amoreiras, pitangueiras, goiabeiras, cajazeiras, coqueiros, abacateiros, mangueiras, limoeiros, mamoeiros, ameixeiras, jaqueiras, jabuticabeiras, laranjeiras, bananeiras e açaizeiros, além de pés de graviola, acerola, siriguela, guabiju, cereja do mato e atemóia.
Evidentemente, essa variedade vira uma festa, não só aos moradores de rua, mas também para os pássaros, como quer minha mulher. Não invejo o Rio de Janeiro de Tom Jobim, pois aqui também temos juritis, sabiás, bem-te-vis, sanhaços, canários, rolinhas, gaviões, quero-queros, viuvinhas, garças e tapicurus, entre outras aves. À noite é a vez das corujas, e dos morcegos, que não são aves, mas também são filhos de Deus.
Toda essa fauna não existiria por essas bandas, não fossem as frutíferas que um dia alguém teve a feliz ideia de iniciar o plantio. Iniciativas como essas fazem falta em cidades, onde predomina a poluição. São Paulo é o maior exemplo disso. Ao contrário de algumas capitais do Norte, Nordeste e até do Centro-Oeste, onde a preocupação ambiental é maior.
Infelizmente, nem sempre as pessoas têm paciência ou estão preparadas para esse convívio saudável com a flora e, por consequência, a fauna. Conheço muita gente que reclama da sujeira dos pássaros e da que as folhas, flores e frutos das árvores causam. Querem um exemplo prático? Há um certo amigo meu (não digo o nome nem por decreto), que vira e mexe, maldiz a caramboleira do seu quintal. Cá pra nós, já cogitou até esterilizá-la ou “vasectomizá-la”. Vê se pode!




