Não tem nada mais angustiante do que fazer um exame anatomopatológico, uma biopsia, e a possibilidade de receber uma notícia ruim tomar conta de sua cabeça. Mesmo que haja a possibilidade real de a notícia ser boa. É a segunda vez que passo por uma experiência como essa. Nos dois casos, por causa da suspeita de um câncer de pele – um melanoma, causa da morte de meu pai, aos 57 anos – e em ambos os casos o exame constatou que a lesão no couro cabeludo era apenas uma ceratose seborreica.
Não sei se acontece apenas comigo, mas sou um tanto pessimista quando se trata de saúde. A gente sabe que vai morrer, e quase não liga para esse destino irrecorrível, mas bastou a morte deixar de ser uma abstração, bastou ela tornar-se algo que parece factível já na próxima esquina, para que comecemos a levá-la a sério. A possibilidade de não estar mais aqui amanhã aproxima-se de uma sensação de desespero. Não por temermos o desconhecido à frente, mas simplesmente por não estarmos mais aqui.
Por isso, quando me sentei diante da doutora Vanessa, dermatologista do Cepon (Centro de Pesquisas Oncológicas), nesta quarta-feira, 11 de março, e ela me disse que a lesão no couro cabeludo “é boazinha” – em outras palavras, não é maligna – senti que meus pulmões readquiriram sua capacidade de respirar e que meu cérebro emagreceu uns dois quilos de maus agouros.
É sério que eu já estava planejando como evitar que minha partida desse trabalho para os outros. Principalmente na parte em que eu, certamente, perderia a capacidade de cuidar de mim mesmo. Ia passar os últimos tempos de minha autonomia cuidando de detalhes que a gente nunca pensa em cuidar: algumas transferências de gestão, uma pequena obra que vinha sendo adiada, a delegação da responsabilidade sobre os cuidados com a conta bancária e os boletos, até então sob minha tutela, as senhas dos cartões e demais itens protegidos, a agenda dos amigos que deveriam ser informados sobre o ‘infausto acontecimento’…
Com a morte, sei que me sentiria triste por partir, por deixar tantos planos sem realizar, mas isso aconteceria apenas até a hora da partida. Depois disso, quem sabe o que há? Só sei que não estaria mais aqui para lamentar…
Mas os planos felizmente foram em vão! Ainda não vai ser desta vez que serão postos em prática! Quem sabe na próxima neura!




